segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Still Alice (2014)

 Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna


Alice tem 50 anos, é uma renomada professora de linguística e autora de diversos livros. É casada e tem três filhos. Uma mulher firme, bonita, inteligente e bem-sucedida, cujo mundo vai desmoronar no decorrer da trama.

Tudo começa quando, em uma palestra, ela tem um branco e não consegue lembrar uma palavra. Pouco tempo depois ela sai para uma corrida e se perde. Preocupada, Alice vai ao médico e após exames é diagnosticada com Alzheimer precoce. Será que você consegue imaginar como essa mulher ativa, no auge de sua carreira se sente ao saber que perderá todas as suas memórias e sua capacidades?

O filme mostra a progressão da doença, os pequenos esquecimentos de Élice, o assunto da aula, a receita de um pudim, a namorada do seu filho... E depois os grandes esquecimentos, como quem é sua própria sua filha.

Quase sempre nos deparamos com o mal de Alzheimer pelo ponto de vista de terceiros, pelo ponto de vista de quem acompanha um parente piorando dia após dia. Mas nesse filme acompanhamos a dor pelo pelo ângulo de quem está perdendo o contato com o mundo. E é desesperador imaginar-se na situação de Élice, perdendo suas suas lembras, seu raciocínio, perdendo a si mesma.

A cena mais bela do filme é um discurso que ela faz em um congresso sobre Alzheime, suas memórias estão se esvaindo, ela precisa usar um marcador de texto para saber quais palavras do seu discurso ela já leu.  Abaixo segue  o discurso 

“A poetisa Elisabeth Bishop escreveu: ‘A arte de perder não é nenhum mistério; tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério’. Eu não sou uma poetisa. Sou uma pessoa vivendo no estágio inicial de Alzheimer. E assim sendo, estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias.

Toda a minha vida eu acumulei lembranças. Elas se tornaram meus bens mais preciosos. A noite que conheci meu marido, a primeira vez que segurei meu livro em minhas mãos, ter filhos, fazer amigos, viajar pelo mundo. Tudo que acumulei na vida, tudo que trabalhei tanto para conquistar, agora tudo isso está sendo levado embora. Como podem imaginar, ou como vocês sabem, isso é o inferno. Mas fica pior.

Quem nos leva a sério quando estamos tão diferentes do que éramos? Nosso comportamento estranho e fala confusa mudam a percepção que os outros têm de nós e a nossa percepção de nós mesmos. Tornamo-nos ridículos. Incapazes. Cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão, e pode ter uma cura. Meu maior desejo é que meus filhos, nossos filhos, a próxima geração não tenha que enfrentar o que estou enfrentando. Mas, por enquanto, ainda estou viva. Eu sei que estou viva. Tenho pessoas que amo profundamente, tenho coisas que quero fazer com a minha vida. Eu fui dura comigo mesma por não ser capaz de lembrar das coisas. Mas ainda tenho momentos de pura felicidade. E, por favor, não pensem que estou sofrendo. Não estou sofrendo. Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada com quem eu fui um dia. 

Então, viva o momento’, é o que digo para mim mesma. É tudo que posso fazer. Viver o momento. E não me culpar tanto por dominar a arte de perder. Uma coisa que vou tentar guardar é a memória de falar aqui hoje. Irá embora, eu sei que irá. Talvez possa desaparecer amanhã. Mas significa muito estar falando aqui hoje. Como meu antigo eu, ambicioso, que era tão fascinado em comunicação. Obrigada por essa oportunidade. Significa muito para mim. "

Maravilhosa interpretação de Julianne Moore, que ganhou merecidamente o Globo de Ouro, BAFTA o Oscar... no total quase 30 prêmios por sua atuação.

Still Alice  é um filme para assistir, para pensar e para mudar nosso modo de ver o mal de Alzhaimer. O filme esbanja sensibilidade. Vale a pena ver essa obra! 



Citações, Frases, Quotes

“Quando eu era bem nova, na segunda série, minha professora falou que borboletas não vivem muito, algo em torno de um mês, e fiquei tão chateada. Fui para casa e contei para a mamãe. E ela disse: ‘É verdade. Mas elas tem uma linda vida’. E isso me faz pensar na vida da minha mãe, na da minha irmã. E, de certa forma, na minha vida.”
(Still Alice)








quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Livro: FEIOS (2005)


Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna



Uglies de Scott Westerfeld, lançando em 2005. Em um futuro distante, a sociedade se divide entre Feios e Perfeitos. E o “Normal” é Feio.

Cada feio quando completa 16 anos ganha uma cirurgia para se tornar “perfeitos”. Isto é, esticar os ossos, modificar a visão tornando-a perfeita. Os perfeitos têm olhos grandes e bocas carnudas, pele macia como de um bebê e visão perfeita.

Tally Youngblood, que tem 15 anos, está ansiosa para sua cirurgia. Peris, seu melhor amigo, realizou o procedimento e se mudou de Vila Feia para Nova Perfeição. Numa tentativa de visita clandestina à Nova Pereição, onde moram os perfeitos, Tally é descoberta e ao fugir, encontra uma outra feia chamada Shai, que também estava bisbilhotando por lá. Elas se tornam amigas e descobrem que ambas se tornarão “Perfeitas” no mesmo dia.

Só que Shai não está tão animada para se tornar perfeita e resolve fugir para a Fumaça.
A Fumaça é um lugar onde um grupo de pessoas que decidem viver como feios, realizando trabalhos manuais. Tally se nega a ir, mas Shai deixa pistas de como encontrá-la. No tão esperado dia da cirurgia de Tally, colocam uma condição para Tally: ela só poderia fazer a cirurgia e se tornar perfeita se encontrasse a Fumaça e revela para eles.

O livro mostra a beleza como prioridade absoluta. A história se passa em um futuro distante, mas a gente se pergunta: Será que já não estamos vivendo um pouco assim? Essa obsessão da sociedade pela beleza, pelas cirurgias, pelo botox, pelos preenchimentos.

E aí vão ficando todos cada vez mais iguais, lábios carnudos, seios volumosos, sobrancelhas arqueadas, nariz fino, sorrisos congelados, testas que se mexem de jeito nenhum. As pessoas não aceitam mais os defeitos, os fios de cabelos brancos, as pequenas ruguinhas, a gordurinha. Todo mundo quer ser perfeito, custe o que custar, deixam de estudar, viajar, comprar livros, deixam de fazer qualquer coisa para pagar as caríssimas melhorias, arriscam a vida, arriscam a própria personalidade.

Uma coisa é cuidar de si mesmo com carinho, outra coisa é essa obsessão pela perfeição que estamos vivendo.
Não, esse futuro não é distante.
Fica a dica de livro e a reflexão: Ser perfeito deve ser muito chato!



Trechos, Frases, Citações

"A natureza, afinal, não precisava de uma operação para ficar linda. Ela simplesmente era. "




domingo, 23 de agosto de 2015

Livro: O Menino do Dedo Verde (1957)






Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e 
Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna



Do escritor francês Maurice Druon. É o único livro fictício do autor e também o único com  linguagem infantil que o autor escreveu. Apesar da linguagem infantil, este é um livro que parece ter sido escrito para adultos.  A nota à edição escrita pelo tradutor Dom Marcos Barbosa fala exatamente sobre isso.

"Pois certas obras não transcendem apenas as fronteiras dos países, mas também as fronteiras das idades: disfarçando a profundidade de suas mensagens na singeleza de um livro para crianças, dirigem-se realmente aos adultos. Só eles compreenderão mil coisas ditas entre as linhas ou sugeridas por vários símbolos."

Por sinal, Dom Marcos Barbosa foi também o tradutor de O Pequeno Príncipe. E são livros bem parecidos; ambos trazem a sabedoria na inocência de uma criança mas cada um com sua grandeza.

O livro conta a história de Tisto, um menino rico, bonito, com pais maravilhosos. Ele tinha sorte, seu pai era dono da maior fábrica de canhões do mundo. Tisto foi criado em meio ao luxo, numa casa maravilhosa cheia de criados. O livro tem uma linguagem infantil, inquieta, inocente: ele descreve os personagens de uma forma toda particular.

Apesar de ter tudo, Tisto era uma criança diferente das outras e essa diferença ficou perceptível no dia em que Tisto entrou para a escola. O menino simplesmente não conseguia assistir as aulas e por mais que tentasse sempre acabava dormindo. Tirou vários zeros e foi expulso da escola. Nesse momento da expulsão de Tisto nós nos deparamos com um dos mais belos trechos da obra:

“A preocupação é uma ideia triste que nos comprime a cabeça ao despertar e permanece ali o dia todo. A preocupação se serve de qualquer meio para penetrar nos quartos; ela se insinua como o vento no meio das folhas, monta a cavalo na voz dos pássaros, desliza pelos fios da campainha.”

Depois de muita preocupação com a expulsão de Tisto, seus pais resolvem aplicar um novo método de educação que seria o aprendizado através da observação do mundo.

Tisto descobre então, que o mundo fora dos muros da sua mansão que brilha não é tão perfeito. Uma das pessoas escolhidas para apresentar o mundo a Tisto é o velho jardineiro da mansão e é ele quem descobre que Tisto tem o dedo verde.

Eu tenho um carinho todo especial por esse livro porque meu professor de Literatura falava muito dele. Numa cidade pequena que não tinha livrarias, numa época que não tinha internet, era quase impossível encontrá-lo. Fiquei com vontade de lê-lo até que um dia, em uma das tardes em que eu me refugiava na biblioteca, encontrei acidentalmente um exemplar empoeirado dele. Estava perdido numa prateleira, sem ser emprestado havia anos. E quando encontrei esse livro, era como se eu tivesse encontrado o mais valioso tesouro do mundo.

Dedico esta resenha, que é mais uma declaração de amor, ao meu professor de literatura Jalon Leal, o qual, um dia, me falou sobre esse livro pela primeira vez.



Trechos, Frases, Citações

“ — Então, Tistu — perguntou ele— que foi que você aprendeu? Que sabe de medicina?
  — Aprendi — respondeu Tistu — que a medicina não pode quase nada contra um coração muito triste. Aprendi que para a gente sarar é preciso ter vontade de viver. Doutor, será que não existem pílulas de esperança?O Dr. Milmales ficou espantado com tanta sabedoria num garoto tão pequeno.—Você aprendeu sozinho a primeira coisa que um médico deve saber.
   — E qual é a segunda, Doutor?
  — É que para cuidar direito dos homens é preciso amá-los bastante"

 (Livro: O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon)


 "Chora, Tistu, chora. É preciso. As pessoas grandes não querem chorar, e fazem mal, porque as lágrimas gelam dentro delas, e o coração fica duro.”

 (Livro: O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon)


“— Tistu, não se distraia! Que é a ordem? — perguntou o Sr.Trovões em tom severo.
  — A ordem? É quando a gente está contente — respondeu Tistu.
Hum, hum!" resmungou o Sr. Trovões, e suas orelhas ficaram mais vermelhas que de costume.
 — Eu já reparei — prosseguiu Tistu sem se intimidar — que o meu pônei Ginástico, por   exemplo, quando está bem alimentado, bem penteado e tem a crina trançada com papel de chocolate, se mostra muito mais contente que quando está coberto de lama. E sei também que o jardineiro Bigode sorri para as árvores que estão bem podadas. A ordem não é isso?"

 (Livro: O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon)


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Como estrelas na Terra, 2007






Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna



Taare Zameen Par, filme indiano de 2007, dirigido por Aamir Khan.  No Brasil: Como estrelas na Terra.

Ishaan é um menino de 9 anos diferente das outras crianças.  Ele não tem amigos.  Não consegue aprender a ler ou escrever. Na verdade o menino não faz “nada” direito: Não levanta na hora, se distrai durante banho, sequer amarra seu cadarço. Está repetindo o terceiro ano e tudo indica que ele será reprovado de novo. É rebelde, desobediente, enfrenta os meninos na rua, enfrenta seus pais.  Brinca em horas sérias, desenha em vez de estudar.

Na escola é frequentemente colocado de castigo, chamado de burro e desatencioso. Os colegas riem da sua falta de capacidade em responder questões simples. Ishaan não faz as tarefas de casa, não mostra as provas para os pais.  Estar na escola é terrível para ele e Ishaan começa a faltar aulas para ir para a rua.

Seus pais já não sabem o que fazer com Ishaan que é o contrário do seu irmão, Yohaan, o melhor da sua classe.  A mãe é carinhosa, mas está esgotada. O pai também não aguenta mais ameaçar e bater no menino e decide manda-lo para um rígido colégio interno. A escola tem fama de “domar cavalos selvagens”.

Lá o garoto precisa lidar com punições ainda mais severas além de se sentir sozinho, abandonado pelos pais. Ishaan é domado.

Começa a se isolar, como um animalzinho acuado, não é mais rebelde, já não desenha, não ri. Apenas se arrasta pela escola como a criança mais fracassada do mundo. Não fica feliz nem com a visita de seus pais e do seu irmão. Apático, de cabeça baixa, indiferente a tudo. Ishaan é tratado (e se sente) como o pior entre os piores.

Um professor temporário, Ninkumbk, começa a dar aulas na escola e ele é diferente de tudo o que as crianças já viram. É engraçado, divertido, canta, dança e toca flauta.  É esse professor que vê em Ishaan o que mais ninguém viu. O menino tem Dislexia.

E então tudo começa a fazer sentido, as desatenções de Ishaan, seu mau comportamento, suas dificuldades. A Dislexia é um transtorno genético da linguagem caraterizada pela dificuldade de decodificar letras e símbolos.  Nesse filmes vemos todos os sintomas do transtorno: Ishaan confunde letras simples, confunde palavras com grafias parecidas.  Tem dificuldade em seguir múltiplas ordens. Não consegue relacionar tamanho, velocidade e distância. Tem dificuldades para ler, escrever e soletrar. Até o mau comportamento de Ishaan é explicado pelo professor: “Por que dizer ‘Eu não consigo’, se que posso dizer ‘Eu não quero.’”

Esse professor é amoroso, paciente, trabalha as dificuldades de Ishaan e valoriza suas potencialidades.  A história é ambientanda na índia mas será que nossas escolas estão preparadas para lidar com as diferenças? Será que sabemos valorizar as diversas formas de inteligência?

Ninguém nunca viu o verdadeiro problema de Ishaan, comparavam-no com outras crianças e o achavam incapaz. Ninguém prestou atenção às verdadeiras habilidades de Ishaan, sua imaginação, sua criatividade, seu talento para pintura.

No filme o professor Rom Shankar Ninkumbk apresenta para a turma diversos exemplos de pessoas com dislexia importantes na história:  Albert Einstein, Leonardo Da Vinci, Thomas Edson, Pablo Picasso, Walt Disney,  Neil Diamond, Agatha Cristie.

A narrativa tem muitos momentos de música, como uma inserção de vários videoclipes. As músicas sempre corroborando com a história. Algumas dessas cenas são longas, mas não chega a cansar não.

O trabalho dos atores é muito bom, do garoto Darsheel Safary e principalmente de Aamir Khan, o diretor do filme que faz o papel do professor Ninkumbk. Com os olhos cheios de lágrimas, transmite a todos uma emoção mais que verdadeira.

Nós terminamos de assistir o filme nos perguntando quantos Ishaans existem por aí? É um filme cheio de ensinamentos. Obrigatório para pais, professores, psicanalistas, psicólogos e para todos que desejam se tornar alguém melhor através da compreensão do outro.  O filme mostra que toda criança é diferente. Cada uma tem seu ritmo próprio. Cada criança tem habilidades e capacidades únicas.

Assim como as estrelas são únicas.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Livro: O Homem que Calculava (1938)


Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna



Do escritor Malba Tahan (heterônimo do professor brasileiro Julio César de Mello e Souza), O romance narra as proezas matemáticas do calculista persa Beremiz Samir na Bagdá do século XIII.
A história é narrada por Hank Tade-Maiá que, viajando de Samarra a Bagdá encontra um outro viajante Beremiz Samir que demonstra fabuloso conhecimento em matemática. Ele calcula tudo, as ovelhas no pasto, as folhas de uma árvore, as estrelas do céu.
Resolvem então viajar juntos enquanto Beremiz conta a Hank sua história e resolve todos os problemas de cálculos que encontram pelo caminho. Chegando em Bagdá, Beremiz rapidamente tornou-se famoso e requisitado e se torna secretário do Grão-vizir (uma espécie de primeiro ministro) Ibrahim Maluf. Torna-se também professor de matemática da jovem Telassim, cujo rosto ele não pode ver, mas mesmo assim se apaixona por ela.

Para conseguir a mão da jovem lhe é proposto um último desafio: decifrar a cor dos olhos de um grupo de escravas de rostos cobertos, apenas ouvindo as suas declarações e duas delas mentiam.
O Homem que calculava foi publicado pela primeira vez em 1938 e já chegou a sua 80ª edição. Sucesso de vendas no Brasil, tendo sido lida por várias gerações de leitores, a obra foi traduzida para o espanhol, o inglês, o italiano, o alemão e o francês. Não é um livro didático, mas como não poderia deixar de ser, é muito recomendado nas escolas de todo o mundo. O autor Júlio César de Melo e Souza publicou ao todo 117 livros até seu falecimento em 1974.


Esse livro utiliza a fantasia e o encantamento das lendas árabes, para mostrar como a matemática pode ser fascinante. Uma matemática sem fórmulas, sem precisar decorar, uma matemática baseada apenas no raciocínio e na lógica. Ao ler O Homem Que Calculava é impossível não ser contagiado pelo amor do autor à matemática.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

What Happened Miss Simone?

Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna



"What Happened Miss Simone?" Documentário de 2015 produzido pela Netflix. Dirigido por Liz Garbees.

O documentário mostra relatos sobre a vida da grande cantora Nina Simone desde sua infância. Ela nasceu em 1933, seu nome de batismo é Eunice Waymon, era de uma família negra e pobre da Carolina do Norte. Eunice começou a tocar piano na igreja que sua mãe frequentava por volta dor 4 aos de idade. Aos 7 anos tocando em um concerto, chamou atenção de duas mulheres brancas, uma delas era a patroa de sua mãe e a outra era professora de música.

Essa professora decidiu dar aula para Eunice Waymon e a fez pelos 5 anos seguintes. Ela acreditava que essa menina seria uma grande pianista e por anos ensinou tudo sobre música clássica para a menina. Numa fala Nina fala sobre essa fase de sua vida assim: “Ela começou com Bach, e esse tal de Bach, eu adorava...”

Eunice estudou Bach, Bethoven, Debussy, Brahmans. A menina estudava 8 horas por dia. A professora organizou um fundo para arrecadar dinheiro para Eunice. Ao terminar a escola, o dinheiro do fundo a mandou para a mais conceituada escola de música dos EUA, a Julliard e ela estudou lá por um ano e meio e depois se candidatou a uma bolsa no Instituto Curtis de música na Filadélfia.

Mesmo sendo muito boa não conseguiu a bolsa por causa da sua cor. Essa rejeição fio um baque para a menina que sonhava em se tornar a primeira pianista clássica negra dos EUA. Precisando de dinheiro, foi tocar piano num bar que ela classificou como “espelunca”. Esse bar não aceitava apenas pianistas, exigiram que ela cantasse e foi nesse bar que, PELA PRIMEIRA VEZ, Eunice cantou. Para que sua mãe não descobrisse que ela estava tocando música profana, Eunice Waymon mudou seu nome para Nina Simone.

O resto da história você já pode imaginar. Nina Simone se tornou uma grande estrela mundial do jazz e do blues. Nunca realizou seu sonho de ser uma pianista clássica, mas trouxe o clássico para sua música.

Nina também se tornou uma grande ativista do movimento Negro. Mas seus discursos, ao contrário de seu amigo Martin Luter King, estava repleto de ódio. Tanta agressividade prejudicou sua carreira, que foi do auge à decadência. Nina era o que chamavam de maníaca depressiva, conhecida hoje como transtorno bipolar. Nina apanhava do marido que também era seu empresário.

Vivia viajando longe da filha e explodia no palco quando alguém não prestava atenção em seu show. Talentosa ao extremo, intensa nos sentimentos, explosiva e subvesiva, Nina era um turbilhão, um vulcão prestes a eclodir. What Happened Miss Simone traz gravações inéditas e imagens raras de arquivo. Uma oportunidade de conhecermos a vida de uma das maiores cantoras de todos os tempos.



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segunda-feira, 15 de junho de 2015

MINHAS TARDES COM MARGUERITTE- Resenha do Filme e Análise Psicanalítica

Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna





Obra-prima francesa do ano de 2010. Dirigido por Jean Becker (Sejam Muito Bem-vindos e Conversas com Meu Jardineiro).

Germain, interpretado por Gérard Depardieu é um homem de meia idade que vive de forma simples e carrega consigo a inocência de uma criança. Ele cultiva frutas e verduras para vender na feira, tem uma namorada que dirige um ônibus e seus passatempos são: encontrar os amigos em um bar e alimentar os pombos na praça.

Sua horta é no quintal da casa de sua mãe onde ele também mora num trailer. Sua relação com sua mãe é tumultuada. Sempre foi assim, desde a infância de Germain. Sua mãe engravidou de um rapaz com quem ela esteve por uma noite, portanto considerava Germain um erro, um estorvo na vida dela.

Germain tinha dificuldade nos estudos, na escola era caçoado por alunos e professores. Germain não aprendeu a ler. Não aprendeu a ser amado. Só aprendeu a ser bom porque a bondade fazia parte dele. Mesmo quando adulto, seus amigos faziam piada dele, da sua dificuldade de compreensão, da sua falta de jeito de dizer as coisas.

Esse homem simples estava condenado a se sentir incapaz por toda a vida, mas ele conhece Margueritte, uma velhinha de 95 anos, que lê livros no banco da praça onde ele alimenta os pombos.

A conversa surge naturalmente, Margueritte fala sobre o livro que está lendo.  Margueritte lê um trecho para Germain. Eles passam a se encontrar por várias tardes, Margueritte lê livros inteiros para ele. Germain é um ouvidor atento, fecha os olhos e imagina tudo o que Magueritte lê. Desses encontros nasce uma belíssima amizade. Em Margueritte, Germain vê uma amiga, uma professora, uma mãe, uma luz para sua vida.

Fazendo uma análise Psicanalítica de “Minhas Tardes com Margueritte” podemos perceber como Germain se tornou o homem que conhecemos. Ele cresceu sendo chamado de burro e ele introjetou o que ouvia se bloqueando cognitivamente por toda vida.

Por isso nunca diga a uma criança que ela não é capaz de algo, porque ela acredita. Acredita que realmente não é capaz e sendo assim, desiste sequer de tentar.

A mãe dizia: “Só faz besteira” “Come, da prejuízo e se suja”
A mãe chamava-o de “Isto” e aquela criança acreditou que era um nada.

Talvez por isso sua necessidade constante de colocar seu nome num monumento em homenagem aos mortos de guerra. Como se ele não existisse de verdade, mas quisesse muito estar na memória de alguém.

Germais sente falta de um pai que nunca teve. Numa conversa com a namorada ele desabafa:
“Em toda família há momentos de afeto. Afagam a sua cabeça e dizem ‘é a cara do pai’. Eu não sou a cara de ninguém, talvez um par de culhões... Ele não existe, nem eu. Não tive um modelo. Precisei descobrir tudo sozinho.”

Sua mãe esta senil, mas continua tratando-o mal, debochando dele. Quando um de seus amigos pergunta por que ele mora no quintal da mãe, por que ele não vai para longe ele responde “Eu não a escolhi Nem ela me escolheu” E acrescenta “ teria que ir para o fim do mundo, Entre minha mãe e eu, a distância está na cabeça”

Quando Gemain encontra Margueritte o processo que chamamos de transferência é imediato. Todas as faltas de sua mãe parecem ser preenchidas, ao contrário da sua mãe Margueritte é carinhosa, paciente, incentiva Germain e acredita no seu potencial.

Mas aquela frágil senhorinha de 95 anos está cada vez mais debilitada, está perdendo sua visão e com isso Germain pode perder sua luz.

Baseado no  livro “La Tête en Friche”, de Marie-Sabine Roger, o longa foi Minhas tardes com Margueritte é mais que um filme, é uma aula de psicanálise, uma aula de vida, é uma poesia. Não deixem de assistir.



sexta-feira, 29 de maio de 2015

PELO FIM DAS CAMPANHAS POLÍTICAS MILIONÁRIAS

Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna




                                                                               
Campanha eleitoral deveria ser assim: Uma cadeira, um pano branco no fundo, uma câmera e um cinegrafista.

Bota na cadeira o sujeito que quer assumir um cargo de governança e manda ele falar do que já fez e das suas propostas de governo. Todos os candidatos na mesma cadeirinha, com o mesmo paninho branco atrás, cara a cara com a câmera, sem superprodução, sem campanhas milionárias, sem equipe de cinema escrevendo roteiros e preparando VTs emocionantes. E se o candidato mentir a respeito de algum dado, terá a candidatura caçada imediatamente.

O cenário é simplista, eu sei. Simples, sóbrio, modesto e barato. Essa padronização de baixo custo começaria diminuindo a discrepância absurdas entre campanhas eleitorais. Hoje, o candidato é eleito não pelos seus méritos, propostas ou capacidade de governar, mas pela quantidade de dinheiro gasto em sua campanha. Isso torna faccioso todo processo eleitoral, e no fim acaba-se elegendo, na maioria das vezes, péssimos governantes.

Mas essa desigualdade no processo eleitoral não é o mais nefasto entre os efeitos das campanhas milionárias. O pior acontece depois, na hora de pagar a conta. Sendo o financiamento público ou privado, essa conta sempre será paga. Porque as empresas que doam milhões para determinados partidos certamente não o fazem por caridade, simpatia ou altruísmo, o fazem na certeza de receber algo em troca no futuro.

As campanhas eleitorais no Brasil estão entre as mais caras do mundo. Em 2004 a campanha de um candidato à presidência no Brasil foi a segunda mais cara no mundo, só perdendo para a de Bush, nos Estados Unidos. E com uma diferença: lá eles declaram todas as doações recebidas e todos os gastos realizados.

Todos os gastos de uma campanha deveriam ser rigorosamente monitorados, viagens, santinhos, carros de som, trios elétricos, fogos de artifícios, pagamento de artistas, bandeiras... mas abordo os gastos com propaganda na TV porque estes representam a maior parte do custo de uma campanha eleitoral.

É justamente das campanhas políticas milionárias que nascem as maiores mazelas do nosso sistema político: delas nascem as licitações fraudulentas, as PLs que favorecem as empresas X ou Y, os apadrinhamentos, os cargos comissionados, as indicações, os funcionários fantasmas.

Por conseguinte temos a merenda escolar de péssima qualidade, porque a empresa X que “ganhou” a licitação financiou a campanha do governo atual; a estrada esburacada porque a empresa Y que também “ganhou” a licitação, financiou a campanha, e assim por diante.

De onde sai o dinheiro para pagar esses contratos milionários em troca de produtos e serviços ordinários? Do dinheiro público, do meu e do seu, da saúde, da educação, da segurança, etc. Em suma: campanhas milionárias, contratos milionários, desvios milionários. Todo mundo de rabo preso! Todo mundo devendo favor a todo mundo e no fim essa conta é sempre paga com dinheiro público, independente do financiamento ser público ou privado.

Por tudo isso, e muito mais, volto a propor a cadeira, o pano branco, a câmera e a sinceridade. E que, de uma vez por todas, acabem com as campanhas milionárias, porque o mal só é cortado definitivamente, se o cortarmos pela raiz.