segunda-feira, 15 de junho de 2015

MINHAS TARDES COM MARGUERITTE- Resenha do Filme e Análise Psicanalítica

Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna





Obra-prima francesa do ano de 2010. Dirigido por Jean Becker (Sejam Muito Bem-vindos e Conversas com Meu Jardineiro).

Germain, interpretado por Gérard Depardieu é um homem de meia idade que vive de forma simples e carrega consigo a inocência de uma criança. Ele cultiva frutas e verduras para vender na feira, tem uma namorada que dirige um ônibus e seus passatempos são: encontrar os amigos em um bar e alimentar os pombos na praça.

Sua horta é no quintal da casa de sua mãe onde ele também mora num trailer. Sua relação com sua mãe é tumultuada. Sempre foi assim, desde a infância de Germain. Sua mãe engravidou de um rapaz com quem ela esteve por uma noite, portanto considerava Germain um erro, um estorvo na vida dela.

Germain tinha dificuldade nos estudos, na escola era caçoado por alunos e professores. Germain não aprendeu a ler. Não aprendeu a ser amado. Só aprendeu a ser bom porque a bondade fazia parte dele. Mesmo quando adulto, seus amigos faziam piada dele, da sua dificuldade de compreensão, da sua falta de jeito de dizer as coisas.

Esse homem simples estava condenado a se sentir incapaz por toda a vida, mas ele conhece Margueritte, uma velhinha de 95 anos, que lê livros no banco da praça onde ele alimenta os pombos.

A conversa surge naturalmente, Margueritte fala sobre o livro que está lendo.  Margueritte lê um trecho para Germain. Eles passam a se encontrar por várias tardes, Margueritte lê livros inteiros para ele. Germain é um ouvidor atento, fecha os olhos e imagina tudo o que Magueritte lê. Desses encontros nasce uma belíssima amizade. Em Margueritte, Germain vê uma amiga, uma professora, uma mãe, uma luz para sua vida.

Fazendo uma análise Psicanalítica de “Minhas Tardes com Margueritte” podemos perceber como Germain se tornou o homem que conhecemos. Ele cresceu sendo chamado de burro e ele introjetou o que ouvia se bloqueando cognitivamente por toda vida.

Por isso nunca diga a uma criança que ela não é capaz de algo, porque ela acredita. Acredita que realmente não é capaz e sendo assim, desiste sequer de tentar.

A mãe dizia: “Só faz besteira” “Come, da prejuízo e se suja”
A mãe chamava-o de “Isto” e aquela criança acreditou que era um nada.

Talvez por isso sua necessidade constante de colocar seu nome num monumento em homenagem aos mortos de guerra. Como se ele não existisse de verdade, mas quisesse muito estar na memória de alguém.

Germais sente falta de um pai que nunca teve. Numa conversa com a namorada ele desabafa:
“Em toda família há momentos de afeto. Afagam a sua cabeça e dizem ‘é a cara do pai’. Eu não sou a cara de ninguém, talvez um par de culhões... Ele não existe, nem eu. Não tive um modelo. Precisei descobrir tudo sozinho.”

Sua mãe esta senil, mas continua tratando-o mal, debochando dele. Quando um de seus amigos pergunta por que ele mora no quintal da mãe, por que ele não vai para longe ele responde “Eu não a escolhi Nem ela me escolheu” E acrescenta “ teria que ir para o fim do mundo, Entre minha mãe e eu, a distância está na cabeça”

Quando Gemain encontra Margueritte o processo que chamamos de transferência é imediato. Todas as faltas de sua mãe parecem ser preenchidas, ao contrário da sua mãe Margueritte é carinhosa, paciente, incentiva Germain e acredita no seu potencial.

Mas aquela frágil senhorinha de 95 anos está cada vez mais debilitada, está perdendo sua visão e com isso Germain pode perder sua luz.

Baseado no  livro “La Tête en Friche”, de Marie-Sabine Roger, o longa foi Minhas tardes com Margueritte é mais que um filme, é uma aula de psicanálise, uma aula de vida, é uma poesia. Não deixem de assistir.



sexta-feira, 29 de maio de 2015

PELO FIM DAS CAMPANHAS POLÍTICAS MILIONÁRIAS

Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna




                                                                               
Campanha eleitoral deveria ser assim: Uma cadeira, um pano branco no fundo, uma câmera e um cinegrafista.

Bota na cadeira o sujeito que quer assumir um cargo de governança e manda ele falar do que já fez e das suas propostas de governo. Todos os candidatos na mesma cadeirinha, com o mesmo paninho branco atrás, cara a cara com a câmera, sem superprodução, sem campanhas milionárias, sem equipe de cinema escrevendo roteiros e preparando VTs emocionantes. E se o candidato mentir a respeito de algum dado, terá a candidatura caçada imediatamente.

O cenário é simplista, eu sei. Simples, sóbrio, modesto e barato. Essa padronização de baixo custo começaria diminuindo a discrepância absurdas entre campanhas eleitorais. Hoje, o candidato é eleito não pelos seus méritos, propostas ou capacidade de governar, mas pela quantidade de dinheiro gasto em sua campanha. Isso torna faccioso todo processo eleitoral, e no fim acaba-se elegendo, na maioria das vezes, péssimos governantes.

Mas essa desigualdade no processo eleitoral não é o mais nefasto entre os efeitos das campanhas milionárias. O pior acontece depois, na hora de pagar a conta. Sendo o financiamento público ou privado, essa conta sempre será paga. Porque as empresas que doam milhões para determinados partidos certamente não o fazem por caridade, simpatia ou altruísmo, o fazem na certeza de receber algo em troca no futuro.

As campanhas eleitorais no Brasil estão entre as mais caras do mundo. Em 2004 a campanha de um candidato à presidência no Brasil foi a segunda mais cara no mundo, só perdendo para a de Bush, nos Estados Unidos. E com uma diferença: lá eles declaram todas as doações recebidas e todos os gastos realizados.

Todos os gastos de uma campanha deveriam ser rigorosamente monitorados, viagens, santinhos, carros de som, trios elétricos, fogos de artifícios, pagamento de artistas, bandeiras... mas abordo os gastos com propaganda na TV porque estes representam a maior parte do custo de uma campanha eleitoral.

É justamente das campanhas políticas milionárias que nascem as maiores mazelas do nosso sistema político: delas nascem as licitações fraudulentas, as PLs que favorecem as empresas X ou Y, os apadrinhamentos, os cargos comissionados, as indicações, os funcionários fantasmas.

Por conseguinte temos a merenda escolar de péssima qualidade, porque a empresa X que “ganhou” a licitação financiou a campanha do governo atual; a estrada esburacada porque a empresa Y que também “ganhou” a licitação, financiou a campanha, e assim por diante.

De onde sai o dinheiro para pagar esses contratos milionários em troca de produtos e serviços ordinários? Do dinheiro público, do meu e do seu, da saúde, da educação, da segurança, etc. Em suma: campanhas milionárias, contratos milionários, desvios milionários. Todo mundo de rabo preso! Todo mundo devendo favor a todo mundo e no fim essa conta é sempre paga com dinheiro público, independente do financiamento ser público ou privado.

Por tudo isso, e muito mais, volto a propor a cadeira, o pano branco, a câmera e a sinceridade. E que, de uma vez por todas, acabem com as campanhas milionárias, porque o mal só é cortado definitivamente, se o cortarmos pela raiz.



segunda-feira, 4 de maio de 2015

Livro: Quando Nietzsche Chorou. Autor: Irvin D. Yalon



A terapia através da conversa é um "deciframento de associações mentais emaranhadas"
Livro: Quando Nietzsche Chorou
Autor: Irvin D. Yalon

segunda-feira, 2 de março de 2015

Enquanto a bandidagem faz a festa...



Depois de dias contando os minutos para a chegada de uns livros que comprei na Internet, eis que me toca a campainha um homem desconhecido, SEM uniforme de nenhuma empresa, num carro SEM nenhum nome.

Pergunto quem é pelo interfone e ele se identifica como de uma transportadora. Na câmera só vejo um homem com um pacote da mão. "Moço, como posso saber que o senhor é mesmo da transportadora?" Ele não soube me responder... Como meu pai estava em casa resolvi deixar meu pai de vigia enquanto abria o portão para atender o estranho.

Realmente o pacote que ele trazia continha meus livros. Eu falei "Como pode o senhor vir sem identificação visível nenhuma? Se eu estivesse sozinha não teria lhe recebido não.." Ele me pediu desculpas e explicou que precisa trabalhar sem uniforme e sem carro plotado devido ao grande número de assaltos. "Se usamos farda com o nome da transportadora somos assaltados, por isso temos que trabalhar disfarçados."

Eu compreendi sua situação, agradeci-lhe pela entrega e fiquei com a fala dele entalada na minha indignação... Porque antes... lá antigamente,,, era o bandido que se disfarçava para não ser reconhecido em seus crimes, agora é o trabalhador de bem que tem que se disfarçar pra trabalhar???

E uma pessoa de bem, dentro da sua casa, fica com receio de abrir a porta para um trabalhador de bem, porque esse pode ser um bandido, mas na verdade ele tá se escondendo justamente dos bandidos, se parecendo com um.
Tá tudo errado...

"O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou.."

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O Adolescente e as Drogas



Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna
 
Foto: Jon Díez Supat
 O Adolescente e as Drogas

 A palavra adolescência segundo o dicionário Aurélio refere-se ao período da vida humana que sucede à infância, começa com a puberdade, e se caracteriza por mudanças físicas e psicológicas. É um momento psíquico de transição, de consolidação de valores mas também de vulnerabilidade.

 É entre a adolescência e a fase jovem que ocorrem os maiores níveis de uso de substâncias psicoativas pela primeira vez. Muitos são os fatores que podem levar ao consumo na adolescência: necessidade de aceitação pelo grupo já que é nesse período que o sujeito realiza uma passagem da família para o grupo social, também é um período de curiosidade, descobertas, aumento da impulsividade, desejo de fazer algo “adulto”, sensação de onipotência, insegurança devido às mudanças corporais, início da vida afetiva.

Devido a todas essas características, os jovens acabam passando de um estágio de uso a outro de forma muito rápida (do uso para o abuso), além de fazerem uso de diversas substâncias diferentes, normalmente da menos para a mais nociva.

Este é um período de desenvolvimento, onde ocorrem transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais e o uso de substâncias nessa fase pode comprometer esses processos. Vários estudos indicam que quanto mais cedo maiores as probabilidades de dependência.

O uso do álcool está entre os problemas mais graves, Segundo a Organização Mundial de Saúde o álcool é a substância psicoativa mais consumida por crianças e adolescentes. A média de idade no Brasil para o primeiro uso de álcool é de apenas 12,5 anos. Muitas vezes oferecido por amigos mas também oferecido pela própria família.

Pesquisas realizadas com usuários de álcool, cocaína, maconha, anfetaminas e êxtasy mostram claramente a existência de uma relação entre o consumo de drogas e as práticas sexuais de risco bem como a infecção pelo vírus HIV. Elas indicam ainda que adolescente que iniciam o uso de drogas em fases mais precoces se mostram mais propensos às relações sexuais de risco.

 
Fatores de Risco

Conhecer os fatores de risco, ou seja, fatores que podem levar o adolescente a procurar às drogas é uma possibilidade de prevenção da experimentação, bem como interromper o uso que já é frequente. Os fatores são Ambientais, Familiares e Individuais.

Os Fatores Ambientais são aqueles que oportunizam o uso das drogas: facilidade no acesso. A lógica é simples: se o jovem não tiver acesso, ele não usará.

Igualmente importantes são os Fatores Familiares: uso de drogas pelos pais, estrutura familiar precária, pouca supervisão dos pais, pais que não conseguem impor limites aos filhos, além de situações estressantes (mudança de cidade, de escola, perda de um ente querido.)

“Estudos mostram que os adolescentes cujos pais têm como costume procurar localizar seus filhos, saber quem são seus amigos, o que eles fazem no tempo livre e como eles gastam seu dinheiro são os que apresentam menores taxas de envolvimento com drogas.” (Supera SENAD, Mod 01, pág 70)

 Temos ainda os Fatores Individuais (que não deixam de estar relacionados aos familiares) eles são subdivididos em:

-Filosofia de Vida do jovem que, por exemplo, vê a droga como algo normal.

-Características de Personalidade: autoestima baixa, insegurança, agressividade, impulsividade.

-Problemas Psiquiátricos: Transtorno de conduta (jovens que apresentam comportamentos anti-social que perturbam e incomodam, violando os direitos individuais das outras pessoas, como intimidações, agressões físicas, práticas cruéis, roubos, etc). Transtorno de Hiperatividade e Déficit de Atenção, Depressão, Ansiedade, bem como outros transtornos.

-Características Genéticas e Familiares- o histórico familiar do jovem se apresenta como um fator de risco para dependência de substâncias psicoativas.

Outros fatores também influenciam: cultura do uso, pertencer a grupos que usam a substância e consequentemente a necessidade de aceitação nesse grupo, sexualidade precoce, baixo desempenho escolar, sentimento de rejeição, ter sofrido abuso físico e mental.

 
Consequências do Uso

As consequências do uso de substâncias psicoativas na adolescência podem resultar em prejuízos para o jovem, emocional, psíquico e físico. Alguns perdurando para toda vida.

O álcool, por exemplo, diminui a atenção, a concentração e a memória numa época em que o desenvolvimento cognitivo é de extrema importância. O adolescente perde o interesse pela escola justamente nessa fase da vida em que o que ele aprende é crucial para o ingresso na carreira dos seus sonhos. O álcool também é um desinibidor, podendo despertar agressividade e comportamentos autodestrutivos. A maior causa de morte de jovens no Brasil é acidente no trânsito e o álcool é responsável por grande parte desses acidentes.

O uso frequente da maconha leva a uma perda da motivação e interesse não só na escola mas em diversas atividades que o jovem gostava antes. Essa perda de interesse vem acompanhada de irritabilidade, distração, problemas de concentração.

No caso dos meninos foi identificado a diminuição na produção de espermatozoide. “Maconha altera a motilidade dos espermatozoides e a cocaína, mesmo nos usuários sociais, pode provocar um comprometimento irreversível no túbulo seminífero, região do testículo onde são produzidos os espermatozoides. Vários trabalhos mostram esse efeito em animais induzidos a usar cocaína nos finais de semana.” (Dr. Sidney Glina é médico urologista, chefe do Departamento de Urologia do Hospital do Ipiranga (São Paulo/SP), diretor do Instituto H-Ellis e coordenador da Unidade de Reprodução Humana do Hospital Israelita Albert Einstein (SP). Ler mais aqui: http://drauziovarella.com.br/sexualidade/infertilidade-masculina/ )

 Nos usuários de maconha encontramos ainda alguns episódios de ataques do pânico e vários estudos relacionam o uso da maconha com desenvolvimento da Psicose (Abordarei esse assunto em um texto a parte). O uso continuado da cocaína pode levar a uma redução de dopamina no sistema nervoso, ocasionando um quadro de depressão.

 
Fatores de Proteção:

 Assim como existem os fatores de risco existem também os fatores de proteção, diretrizes que afasta o jovem das drogas e fortalece-o para que se torne um adulto seguro e protagonista de sua própria história, sem que ele precise depender de nenhuma substância. Quanto menos tempo de uso mais fácil é o processo de recuperação mas vale lembrar que o uso de drogas pode ser diminuído e interrompido qualquer que seja o tempo de uso e o grau de dependência do sujeito

 Os fatores de proteção na adolescência são:

  •  Bom relacionamento com a família
  • Ambiente familiar propício ao diálogo aberto
  • Supervisão e Monitoramento dos pais,
  • Pais que conhecem os amigos do jovem.
  • Noções claras de limites
  • Valores familiares como religiosidade e espiritualidade
  • Prática de atividades esportivas
  • Envolvimento e bom desempenho na escola
  • Estabelecimento de objetivos
  • Reconhecimento das qualidades dos adolescentes

 



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Chile x Eunápolis


Quando fui ao Chile o voo atrasou. Chegamos ao Chile a 1 da madrugada. Estava um frio de congelar dinossauro. O táxi chegou ao hotel as 02:30. Fomos dormir exaustos. O café do hotel era servido até as 09:30. Eu fui guinchada da cama as 09:20 por alguma força divina, em seguida guinchei as meninas mas o marido estava tão cansado que não levantou. 

Chegamos ao restaurante do hotel as 09:29. Enquanto as meninas sentaram eu fui servir o café delas duas funcionárias começaram a retirar as coisas. Exatamente assim, eu em pé para pegar as coisas e elas retirando ao mesmo tempo, numas das atitudes mais grosseiras que já vi. Claro que subi imediatamente para o quarto, refiz as malas e mudei de hotel.

Essa noite me hospedei em um hotel na cidade de Eunápolis, interior da Bahia. Também cheguei tarde e cansada. O café também era servido as 09:30. Novamente eu apaguei. Fui acordada com uma ligação da recepcionista do hotel:

Recepcionista: "Senhora, vocês vão descer pra tomar café?"
Eu ainda dormido: "Que horas são?.."
Recepcionista:  "São 09:30, senhora"
Eu "Então não vai dar tempo, as meninas ainda estão dormindo.."
Recepcionista: "Se a senhora quiser acordar as meninas e descer eu peço pra cozinha lhe aguardar."

Assim foi feito. E quando descemos as mulheres da cozinha trouxeram um novo café quentinho, muitos "Bom dias" acompanhados de largos sorrisos.

O Brasil é um país todo fudido, judiado, maltrato durante séculos por governantes desonestos que só queriam enriquecer a si mesmos e ao seus grupos, para se perpetuarem no poder e depois ir gastar a fortuna lá fora.  Mas apesar de tudo isso o povo do Brasil tem uma humanidade e um calor que não se vê em nenhum outro lugar do mundo.

Por isso vou continuar aqui, com esse povo lindo do meu Brasil, e lutando para que um dia possamos ter o que merecemos: um sistema político sério, ético, decente, transparente, moral. Pelo povo e para o povo. Eu acredito, afinal somos um pais abençoado por Deus.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O ABUTRE (2014)

Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna


Louis Bloom  é um personagem intrigante. Ele é um ladrão barato em busca de emprego. Pede emprego até para quem ele vai vender mercadoria roubada. Alguém com essas características atrairia simpatia de imediato, pela tentativa de superação “Está querendo deixar de ser ladrão, mudar de vida.”

Mas não é o caso de Louis Bloom, porque enquanto ele mostra ser um jovem solitário tentando encontrar um emprego de qualquer jeito, seu olhar mostra uma certa frieza, crueldade, até um certo grau de psicopatia. Alie tudo isso a uma fala que parece ser mais um manual de como crescer no mundo coorporativo mesclado com livro de autoajuda. E você tem Louis Blum.

Tudo parece dar errado na vida de Bloom até que uma noite ele encontra uma Van fazendo a cobertura de um acidente para vender pra TV.  Ele mais uma vez tenta um emprego com esse cinegrafista independente mas é rejeitado.

Bloom decide então começar sua carreira sozinho. Ele rouba uma bicicleta e em seguida troca a mesma por uma câmera e um rádio de polícia. Declara-se um repórter freelance e sai em busca da notícia.

Ou melhor, em busca do sangue.          

Louis Bloom é curioso, pesquisa tudo na internet, aprende rápido, não mede esforços para alcançar o “sucesso profissional.” Ele não tem limites e a sua amoralidade combina perfeitamente com o canal de Tv que compra as imagens em sua mão. Nas cenas em que Louis e a diretora do jornal Nina negociam as imagens percebemos que, para ambos, trata-se apenas de um produto a ser vendido e revendido, sem nenhuma pontada de humanidade.

Louis Bloom é a encarnação do que há de pior na imprensa. Ele não sabe o que é ética então ele filma qualquer coisa em closes extravagantes. Ele invade a cena do crime, altera detalhes, mexe nos corpos, sabota os concorrentes, tudo para conseguir uma boa imagem.

Excelentes interpretações de Rene Russo como Nina, a diretora do telejornal. E de  Jake Gyllenhaal como Louis Blom. Essa obra O filme foi indicado ao Oscar de “Melhor Roteiro Original.”.

Roteiro e direção de Dan Gilroy. O Abutre é uma excelente indicação para debater os limites éticos, legais e morais da imprensa: Por que sabe o que é mais verdadeiro nessa história? Existem abutres assim porque existem veículos midiáticos interessados nesses conteúdos. E esses veículos midiáticos se interessam por esses conteúdos porque existe um público (um grande público) que assiste.


Muito bom filme. Pesado, crítico e até incômodo. Mas ainda assim muito bom.



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

The Butler- O mordomo da casa Branca.

Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna

Filme estadunidense de 2013. Dirigido por Lee Daniels (que dirigiu também Preciosa), O Mordomo da Casa Branca é inspirado na vida de Eugene Allen, que trabalhou como mordomo na Casa Branca por 34 anos, entre 1952 e 1986. Eugene serviu oito presidentes americanos, entre eles John F. Kennedy, Richard Nixon e Ronald Reagan.

O longa é protagonizado por Forest Whitaker, ganhador do Oscar por sua atuação em “O Último Rei da Escócia” de 2006. Forest interpreta o mordomo, que no filme recebe o nome de Cecil Gaines. A apresentadora e atriz Oprah Winfrey interpreta Gloria Gaines, esposa de Cecil.

Apesar no filme ser baseado em um personagem real o roteirista se utilizou de total liberdade de criação para desenvolver um personagem com uma vida bem diferente da de Eugene Allen. Então assista como uma obra de ficção, inspirada em pessoas reais e fatos histórico, mas ainda assim uma ficção.

O filme narra quase toda a vida do personagem, começando com ele menino, um menino negro que cresceu nas plantações de algodão da Geórgia. Ainda quando garoto viu sua mãe ser estuprada e seu pai ser baleado por um branco.

Após o episódio, a dona da fazendo, mãe do homem que cometeu as atrocidades, leva o garoto para ser “o negro da casa”. Lá ela o ensina a ter modos e a servir aos brancos.

Mais tarde, Cecil vai embora da fazenda de algodão em busca de um emprego na cidade. Se intitula um “negro domesticado” e encontra emprego em um hotel. Neste hotel Cecil aprende ainda mais sobre a arte de servir e acaba sendo convidado para ser O Mordomo da Casa Branca.

Cecil finalmente tem um emprego e sua própria família. De dentro da casa branca, durante 34 anos, ele testemunha eventos importantes do século 20. Vários presidentes passam e ele acompanha as discussões relacionadas à luta dos negros por igualdade. Enquanto ele serve o mais alto cargo do poder seu filho mais velho Louis vai diretamente para as ruas brigar pelos direitos dos negros.
  
Cecil sente-se culpado pela morte do pai.  É o garoto quem cobra que o pai faça algo quando sua mãe é estuprada e por isso o pai morre. Nesse momento Cecil aprende a ser submisso, dócil, como se morasse de favor no mundo dos brancos.

O personagem conquista um excelente emprego, está numa posição que ele jamais sonhou, servindo aos presidentes dos EUA, mas ainda assim conserva seu ar submisso. E aí nos perguntamos, será que é justamente o seu ar de submissão que fez com que ele fosse mordomo dos presidentes por tantos anos?

Cecil Gaines aprendeu que não vale a pena lutar, por isso não aceita a luta do seu filho. Além dos desentendimentos constantes com o filho, Cecil vê sua esposa Glória cada vez mais infeliz.

O filme se desenrola através de várias sub-tramas: o trabalho de Cecil Gaines na Casa Branca, seu casamento desgastado, sua relação conturbada com seu filho Louis, e as transformações sociais que ocorreram no período de tempo abordado.

O filme faz uma importante passagem por vários movimentos raciais como os Freedom Riders, um grupo de pessoas que decidiram viajar para o Sul dos Estados unidos, contrariando as leis de segregação, e por isso sofrendo humilhações, xingamentos e agressões. Esses ônibus eram chamados de Ônibus da Liberdade e o filme mostra um desses ônibus sendo queimado.

Encontramos ainda o partido dos Panteras Negras, que tinha como objetivo proteger os negros dos atos de brutalidade da polícia. Também a ação da Ku klux Klan no Sul dos Estados Unidos e as marchas de Martin Luther King.  Louis Gaines, filho de Cecil está presente em todos esses momentos.


O filme perpassa por outros acontecimentos históricos como o assassinato de John Kennedy e guerra do Vietnã, mas a luta dos negros por seus direitos civis é o grande destaque do filme.






Gênero: Drama
Direção: Lee Daniels
Roteiro: Danny Strong, Lee Daniels
Elenco: Alan Rickman, Colman Domingo, Cuba Gooding Jr., David Oyelowo, Forest Whitaker, Jane Fonda, Jesse Williams, John Cusack, Liam Neeson, Matthew McConaughey, Mila Kunis, Oprah Winfrey, Terrence Howard
Produção: Hilary Shor, Pamela Oas Williams
Fotografia: Andrew Dunn
Montador: Joe Klotz
Trilha Sonora: Rodrigo Leão

Palavras Chaves: Resumo filme Crítica Resenha Comentário Opinião Citações Diálogos Quotes cinema Oscar Psicanálise

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A obsolescência das Letras na Era do Lixo


Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna


Todo final de ano a mesma coisa, pais e mães pegam uma pilha com 10, 20 livros didáticos, que seus filhos utilizaram durante o ano escolar e não têm outra coisa a fazer se não jogar fora. Alguns mais apegados os acumulam em depósito, mesmo sabendo que o destino deles, mais cedo ou mais tarde acabará sendo o lixo, na melhor das hipóteses um lixo reciclável. Eles apenas adiam a dolorosa ação colocando-os no depósito, até que seus corações se aquietem.

O destino desses livros é o lixo porque eles foram “projetados” para isso. Livros caros, livros bons, e ainda assim projetados para o lixo.

Nem sempre foi a assim, num passado bem recente os livros didáticos não iam para o lixo. Porque eles eram feitos para serem usados e reusados, eram feitos para servirem enquanto o conteúdo estivesse atual. Eram livros substanciais, cheios de conhecimentos, livros para serem estudados e lidos, mas não riscados. As atividades eram feitas em um caderno a parte, copiadas do livro ou do quadro negro e respondidas na frente e no verso da folha do caderno. Vocês ainda se lembram disso?

Ao final do ano os livros eram repassados, vendidos ou doados, mas alguém teria oportunidade de aprender naquelas mesmas páginas. E depois um outro alguém, e um outro alguém... Era como um amor sem egoísmo, você amava o que foi de alguém, sabendo que depois de você, seria de um outro alguém.

Não era uma prática de comunidades carentes, pelo contrário, os livros eram repassados principalmente em colégio particulares. Numa época em que o ser ainda significava um pouco mais que o ter, muitas famílias abastadas não se importavam que irmãos mais novos usassem livros que tinham sido dos irmãos mais velhos, ou até de outros alunos. Poucos tinham a futilidade de querer exibir o novo. Até porque muitos livros eram tão bem conservados (devidamente plastificados) que não era possível diferenciar o usado do novo.

Às vezes a própria escola facilitava as trocas de livros entre os pais. Trocas, compras e vendas e lá iam os mesmos livros voltarem a ser úteis no ano seguinte, nas mãos de outra criança. O livro era importante, respeitado e bem cuidado em sua longa vida de provedor de conhecimento. Todos economizavam e o planeta agradecia.

No entanto, isso não era lucrativo. Não, nem um pouco lucrativo.

Sempre que uma criança utilizava os livros de outra as editoras deixavam de vender, e isso era péssimo para os negócios. Então elas trataram logo de evitar esse descabimento, utilizando uma solução simples: Vamos colocar as atividades para serem respondidas no próprio livro! Assim, no final do ano o livro estará todo respondido, sem condições de ser utilizados por outra criança! Assim vendemos mais livros! Ganhamos mais dinheiro! E que se dane o meio ambiente!

E daí que retiramos matéria prima e devolvemos lixo para a natureza? E daí que algumas famílias que priorizam com dificuldade a educação dos filhos vão ter que fazer um sacrifício enorme no início do ano para comprar os caríssimos livros novos? E daí que a produção de papel é uma das atividades humanas mais nocivas ao planeta? E daí que para se produzir 1 tonelada de papel são necessárias de 2 a 3 toneladas de madeira? E daí que o processo de fabricação consome água mais do que qualquer outra atividade industrial? E daí toda energia que esse processo todo consome? e a emissão de CO2, a prática da monocultura extensiva, o risco de desertificação devido ao empobrecimento do solo, a redução da biodiversidade, a extinção de nascentes e mananciais, o deslocamento de populações nativas... E daí?

Nada disso importa. O que importa é só vender, vender e vender. E lucrar, lucrar, lucrar.  É a lógica do consumo na sociedade do descartável.

E nessa lógica jogamos um monte de livros fora anualmente. E todo mundo aceita isso passivamente: as escolas que adotam esses livros, os pais que precisam parcelar a compra em 10x sacrificando orçamento da família, as crianças que encontram tudo pronto e não sabem o que é copiar uma questão do livro para o caderno, sendo que esse processo em si já era também um aprendizado.

E você, que se importa, se sente uma alienígena por se importar com algo que ninguém mais parece se importar: os livros didáticos projetados para o lixo. Não se trata de dinheiro mas dos princípios equivocados da nossa sociedade. Uma sociedade cujos valores estão cada vez mais distorcidos, uma sociedade baseada num modelo onde programa a obsolescência de tudo, inclusive do amor pela natureza e pelo ser.