sábado, 29 de abril de 2017

Jaci era Alegria

 
 
Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna
 
 
Dia de sábado ela chegava cedíssimo com sua bicicleta. Arrumava a casa toda em 30 minutos, quando eu acordava ela estava com o maior sorriso do mundo nos lábios, uma caneca de café para mim nas mãos e o convite: "Já tá tudo pronto! Vamos bater perna na rua?" Eu dizia que a gente não tinha nada pra comprar na rua e ela repetia "Vamos só bater perna!!!"
Como resistir a um convite desses feito com um sorriso tão grande? Enquanto eu pensava na roupa que ia vestir ela já tinha arrumado Melzinha, que na época tinha pouco mais de 6 anos. Já tinha arrumado, dado café da manhã e feito um penteado lindo. Eu nunca entendi aquela habilidade que Jaci tinha de fazer tudo tão rápido e com tanto amor.
Íamos pra rua, ela ia contando que tinha chegado de alguma festa as 4 manhã e eu não acreditava como alguém que tinha dormido menos de 3 horas podia acordar com tanta energia e tanta alegria.
Sua valentia era tão grande quanto sua alegria. Jaci não deixava nada barato, xingava quem roubasse minha vaga para estacionar, gritava com quem parava o carro na rua pra conversar, falava grosso com os flanelinhas. Ela não tinha filtros, nem hipocrisia.
Andávamos, contávamos história, comprávamos bobagens que não precisávamos. Ela corria pela rua como uma criança com Mel, eu reclamava, mas era da boca pra fora, porque no fundo sabia que Mel com ela estava segura. Segura e feliz. Jaci mataria e morreria para defender minha filha de algo ruim.
Entrávamos em lojas, quando eu vestia roupa tinha que sair do provador e mostrar pra ela. Ela vestia também, parecia uma criança quando gostava de algo, “Passa o cartão?” pedia ela sem pensar no amanhã. Jaci não queria saber o preço, só queria ser feliz!
Sempre Finalizávamos nossas manhãs de sábado comendo pasteis em uma barraca de pé de muro com aparência feia. Eu não comeria lá sozinha, mas com Jaci parecia que tudo era permitido.
Chegávamos em casa cheias de sacolas empanturradas de pastéis e ela me perguntava "Precisa fazer almoço?" Claro que não precisava. Sentávamos no chão, íamos abrir sacolas, rir, fazer uma bagunça enorme que ela daria um jeito de arrumar em 3 minutos. Vamos experimentar de novo? E lá ia Jaci se vestir e vestir minha Mel com as roupas novas, desfilavam pela casa, pulavam, riam alto felizes.
Jaci foi um anjo em minha vida, o anjo mais defeituoso que já vi e também mais amoroso. O carinho que Jaci deu para minha Mel não tem preço, Jaci trouxe alegria para minha casa e para minha vida durante anos.
Um dia Jaci foi embora, se apaixonou, largou tudo, marido, emprego e seguiu seu coração... Jaci só queria ser feliz! Hoje seus filhos lhe deram netos, ela é uma avó com cara de menina. Jaci sempre será menina. Nas fotos vejo-a pegando-os no colo como pegava minha Mel, eu olho para aquelas crianças e sei que eles são extremamente sortudas por terem Jaci na vida deles, assim como eu tive.
Hoje é sábado, hoje eu acordei e senti saudade enorme de ouvir sua voz excitada me chamando: "Vamos bater perna na rua?"
 
 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A Psicopatia no Livro O COLECIONADOR de John Fowles

 
Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna
 
 
 
O Colecionados de John Fowles, best seller mundial lançado em 1963.
 
Frederick Clegg é um jovem que trabalha em uma repartição pública. Fred não tem amigos e não faz questão de tê-los. Nunca namorou. Não parece gostar nem mesmo da sua tia e sua prima, sua única família.
 
Ele nutre uma obsessão por Miranda, fica na janela do trabalho esperando ela passar, observa ela na rua, uma vez pegou o trem, sentou atrás dela. Além de observa-la ele anotava todos os passos dela em um diário.  Miranda era bonita, jovial, apaixonada por artes.
 
Abaixo um trecho do livro que descreve a infância de Frederick pra gente tentar entender a formação da sua personalidade:
 
“O meu pai morreu num desastre de automóvel. Eu tinha dois anos.
 Isso foi em 1937. Ele estava bêbado, mas a Tia Annie disse sempre que foi minha mãe quem o levou a beber. Nunca me disseram o que aconteceu, na realidade, mas mamãe foi-se embora pouco tempo depois e deixou-me com Tia Annie. Só queria divertir-se. A minha prima Mabel contou-me, certa vez (quando éramos garotos, durante uma zanga) que ela era uma mulher das ruas e que se fora com um estrangeiro. Fui estúpido e perguntei logo a Tia Annie se era verdade, e. claro, esta inventou uma mentira e nunca me disse o que quer que fosse sobre mamãe. Não me importo, agora, se ela ainda estiver viva; não a desejo conhecer. Não tenho o menor interesse nisso. A Tia Annie sempre pareceu julgar que eu tivera sorte em verme livre de mamãe e eu concordo inteiramente com ela.
Assim, fui educado por Tia Annie e pelo Tio Dick, juntamente com sua filha Mabel. A Tia Annie era a irmã mais velha de meu pai.
O Tio Dick morreu quando eu tinha quinze anos, em 1950. “
 
Ele é um tipo esquisito, que despreza todo mundo e gosta de passar seus momentos sozinhos. Seus únicos prazeres de Fred são: observar Miranda e caçar borboletas para a coleção que ele mantém há anos. Esse jovem estranho acaba ganhando uma fortuna numa espécie de loteria do futebol. Mas o que fazer com todo esse dinheiro? Fred não gostava de festas, não tinha sonhos, não desejava comprar nada, a única coisa que ele desejava era Miranda.
 
Ele tenta ter relações com uma prostituta mas não consegue. Sua sexualidade é expressa através do consumo de pornografias, com as quais ele alterna sensações de prazer e nojo. Sem encontrar nenhuma forma de satisfação com sua fortuna Fred volta a seguir Miranda, agora em Londres, para onde Miranda tinha se mudado a fim de estudar artes.
 
Um dia Fred lê num jornal de uma propriedade a venda, um lugar afastado de tudo. Ao visitar o local ele descobre que a casa possui um porão praticamente invisível ao mundo. A partir desse momento uma ideia começa a germinar em sua cabeça: Sequestrar Miranda. 
 
Fred cuida de tudo minuciosamente, desliga os telefones, reforma a casa, reforça as parede do porão, faz o isolamento acústico, coloca um porta grossa com metal no interior, em seguida ele compra “tudo” que alguém pode precisar pra viver: roupas, livros, revistas. Ele segue Miranda até que encontra uma oportunidade e a sequestra.
 
A primeira parte do livro é toda narrada pelo próprio Frederick, quem ele é, sua obsessão por Miranda, o desenvolvimento do seu plano e sua relação com a jovem enclausurada. Ele a enche de presentes, tenta ser gentil, em sua mente doentia Miranda vai se apaixonar por ele e eles vão viver juntos e felizes. Claro que não é isso que acontece, no fundo ele sabe que nunca terá o amor daquela jovem, que ela será sempre sua prisioneira, como uma das borboletas da sua coleção. Seu espécime mais bela e mais rara. Na verdade ele não a ama, ele a quer possuir simplesmente. Ele sequer tenta ter uma relação sexual com ela, só quer sentir que ela pertence a ele.
 
A relação carcereiro e prisioneira muda constantemente, Miranda grita, esperneia, sente raiva, se retrai, tenta fugir, tenta conversar, tenta negociar, tenta enganá-lo, seduzi-lo, tenta desesperadamente se livrar daquela situação mas tudo o que ela faz parece inútil.
 
Fred vai percebendo as artimanhas de Miranda e se tornando cada vez mais metódico, às vezes cruel. Em determinados trechos do livro parece ter perdido interesse por ela mas em nenhum momento cogita liberta-la.
 
A segunda parte do livro é toda narrada por Miranda. É o diário que a jovem escreveu desde o momento em que foi aprisionada. Só nessa segunda metade é que conhecemos Miranda como ela é, seu gosto pela liberdade, suas dúvidas da juventude, o que era importante na vida dela, seu desejo de sair dali e fazer as coisas diferentes.  Se você não consegue desgrudar do livro na primeira parte, talvez você ache a segunda um pouco cansativa. Miranda no tem nada de especial, é uma jovem comum como tantas outras, talvez um pouco mais mimada e até arrogante. Se a narrativa de Fred foca nela e no seu aprisionamento a dela viaja por situações e personagens que não acrescentam muito a narrativa do livro.
 
Na primeira metade do livro temos a narrativa de Fred, na segunda metade o diário de Miranda. Na terceira parte temos o desfecho dessa situação com cerca de 14 páginas e a Quarta parte é uma espécie de Epílogo.
 
Não ficamos encantados ao conhecermos Miranda, mas isso não diminui nossa angústia pelo seu confinamento. Tudo que ele faz por ela, dando-lhe roupas, livros, quadros e revistas não ameniza a crueldade do seu ato. E durante o livro percebemos que um aprisionamento como esse, sem data de acabar é muito pior do que do que uma morte, porque você priva a pessoa de sua vida, em vida.
 
O personagem Fred tem claros traços de transtorno de personalidade antissocial (também chamado de psicopatia). Essa desordem de personalidade caracterizada pelo desprezo as regras sociais, frieza e ausência de empatia. A falta de emoções e ausência de culpa são as principais características do psicopata. Fred não se importa com o sofrimento de Miranda, ele a mantém presa da mesma forma como faz com suas borboletas.                                             
   
O Psicopata é um indivíduo amoral que vive segundo suas próprias regras. Fred sente vontade de sequestrar Miranda e a sequestra, ele não se incomoda com o certo e o errado. Os psicopatas veem as pessoas como coisas, e como tais podem usadas segundo seus interesses.
 
Também não possuem emoções por isso são extremamente racionais. Há um MITO que diz que todo psicopata é inteligente. Não é. Cientistas americanos e britânicos publicaram uma recente pesquisa que mostra que na verdade os psicopatas tem uma inteligência abaixo da média. Os pesquisadores  descobriram isso depois de avaliar 187 estudos que relacionam a psicopatia com as capacidades intelectuais.  Segundo um dos pesquisadores da Universidade de St. Louis, no Missouri esse mito foi criado porque as pessoas relacionam a inteligência com duas características típicas de um psicopata: a manipulação e a sedução.
 
Acrescenta-se aí o personagem Hannibal Lecter, o psicopata mais famoso do cinema, que era inteligentíssimo e ainda fato dessas pessoas por serem frias, acabam sendo racionais e planejam seus atos com muito cuidado. Como resultado dessa mistura temos o mito de que o psicopata tem inteligência acima da média.
 
Fred confirma isso. Ele tem dificuldades em conversa sobre qualquer assunto mais profundo com Miranda, seja sobre pintura, literatura ou atualidades. Ele até finge interesse para agradar Miranda, mas fica evidente que ele não tem o mesmo nível intelectual que sua prisioneira.
 
Em determinado momento da obra os mais desatentos podem achar que Fred ama Miranda. Não ama. Ele apenas quer possuí-la. Como não há sentimento, no psicopata também não há o apego. E essa característica nos é revelada de forma perturbadora no final do livro.
 
O Colecionador é um livro inquietante, que fala nas linhas e nas entrelinhas. Livro para ser lido, digerido e relido. Não posso garantir que você vai gostar, mas posso garantir que essa obra não vai sair da sua cabeça.

Como Referir:  ROCHA, Raquel. A Psicopatia no Livro O COLECIONADOR de John Fowles Esquizofrenia Residual. Disponível em: <http://soliloquiospsicanaliticos.blogspot.com > Acesso em: __/__/____  

Olha o aipim aêê!


Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna
 
"Olha o aipim aêê!" Ele passa todos dos dias na rua com seu carrinho de mão, já tarde da noite. Ele tem um vozeirão forte, achei que ele tinha uns 40 anos, mas depois vi que ele tem uns 20. Ele sobre e desce a ladeira gritando “Olha o aipim aêê!” às 20, 21, 22:00 horas... E ele sobe e desce empurrando seu carrinho de mão.
A primeira veze que ouvi “Olha o aipim aêê” achei estranho. Há séculos não via mais ninguém passar na rua gritando para vender nada. Lembrou-me quando morei no interio  do interior, naquela cidadezinha que de tão pequena nem cidade era ainda. Lá tudo vinha até a gente, o leite, as hortaliças, as frutas, aquela farinha e aquele café torradinhos na mesma madrugada... Achei que meu vendedor de aipim ia passar só aquela vez, senti –me inebriada de nostalgia e admiração e o deixei passar.

Mas ele passou a segunda vez, “Olha o aipim aêê” e eu quis escancaram a porta e sair esbaforida mas a rua estava escura, deserta, e eu sozinha em casa, meus critérios de segurança me retiveram dentro da fortaleza de coração partido.

Na terceira vez que ele passou eu estava decidida a comprar, já tinha deixado até o dinheiro separado, mas quando ouvi “ Olha o aipim aêê” estava no banho e mesmo saindo ensaboada, vestindo a roupa ao avesso, quando botei a cara na porta o vendedor já estava longe.

Hoje finalmente consegui alcançá-lo, gritei da janela “Moço, quanto é o aipim?” Ele gritou da rua “É dois e cinquenta Dona.” Aí eu disse feito criança “Separa dois que estou descendo!!!” 

Peguei meus dois pacotes de aipim como quem pegava dois tesouros. Não é que eu goste tanto assim de aipim, não é que a rua não tenha aipim à venda em cada esquina, é que eu olho para aquele homem subindo e descendo a rua tarde da noite com sua carrinho de aipim, trabalhando honestamente, suadamente, animadamente e eu não tenho como não sentir uma ADMIRAÇÃO monumental por esse ser humano...

E agora aqui em casa vai ser assim, aipim cozido, aipim frito, bolo de aipim, escondidinho de aipim, cocada de aipim, caldo de aipim, aipim com manteiga, com queijo, com ovo, com carne seca e me mandem receitas de aipim!!!

Porque sou dessas, movida pela Nostalgia e pelo Coração.

Olha o aipim aêê!

 
 
 
 
 

sábado, 22 de abril de 2017

"Mainha, Como a senhora está?"

Minha mãe é assim: 
Eu pergunto "Mainha, Como a senhora está?" Aí ela me conta como ela acordou, o que ela comeu, o que ela fez após o café, como está o jardim dela, quais plantas estão bonitas quais estão feias, se foi a rua, quem ela encontrou, o que conversaram, o que ela comprou, que horas chegou em casa, como ela preparou a salada e todo o resto do almoço, se o suco ficou grosso ou ralo, aí ela fala do clima, me dá noticias dos parentes do Ceará, da Bahia e dos de São Paulo, me dá notícia dos sobrinhos, das notas, de quem fica muito tempo no celular, fala de quem tá com as cuecas pequenas, de quem precisa aparar as pontas dos cabelos, fala de gente que não faço a mínima ideia quem é, fala das flores, do pé de seriguela, do caqui, do abacate, dos planos, da vida, do tempo... E eu adoro ouvi-la.


Essa é minha mãe. Fui criada assim, com muitas palavras, muitas histórias, muitas opiniões.

Então, só pra você saber, se eu perguntar "Como você está" e você me responder com uma única palavra "bem", eu sempre vou achar estranho...
 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Casa Mais Feliz do Mundo.


 
Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna






 
Ficava na beira da estrada, uma estrada de terra amarela, numa  época em que quase não havia carros, o movimento que se via era de cavalos, jumentos, pessoas a pé. As crianças faziam festa, eufóricas, ao avistarem qualquer movimento ao longe. Seu Manoel venerava aquela casa, a casa que foi construída por seu pai, ele adorava morar na beira da estrada, adorava conversar com as dezenas de compadres e comadres que passavam, adorava servir água aos passantes porque no sertão, de alguma forma, todos se ajudam. Seu pai havia construído e morrido naquela casa e Seu Manoel sentia-se orgulhoso de tê-la herdado. Pretendia honrar aquele local até o fim dos seus dias.

Quando seu Manoel estava na lida, Dona Maria era quem fazia as honras da casa. Lá vinha um viajante ao longe e Dona Maria já corria ao pote para pegar água fresquinha. Os nove filhos olhavam curiosos e excitados para os que passavam. De onde vinham? Para onde iam? Poucas vezes eles haviam saído dali e o que tinham visto quando saíram era sempre menor que aquela casa. Aquela era maior e mais feliz casa do mundo.

Seu Manoel parecia mesmo era um Rei na varanda daquela grande casa, com sua esposa ao lado e seus nove filhos brincando no terreiro.

O tempo foi passando e os carros foram surgindo... Estes levantavam mais poeira que os animais.  As pessoas dos carros não paravam para pedir água muito menos para aquele “dedim de prosa”. Dona Maria não notou, estava muito ocupada nas tarefas de casa, limpando poeira, jogando água no terreiro antes de varrer com a vassoura feita de alecrim do mato. Mas seu Manoel notou a mudança, as pessoas dos carros nem olhavam mais para sua casa na beira da estrada.

 As crianças foram crescendo... de repente aquela casa enorme parecia pequena para elas. Uma a uma foram ganhando o mundo. Arrumavam empregos, esposas e maridos...  A chuva era cada vez mais escassa, a poeira cada vez maior. Ficou apenas Seu Manoel e Dona Maria naquela casa. Jamais sairiam de lá, juraram morrer naquele pedaço de chão.

 Nas datas religiosas os filhos não apareciam, estavam longe, as passagens eram caras, os trabalhos não davam folgas. Os compadres e comadres já não os visitavam com tanta frequência, estavam doentes, artrite, artrose, coração...  Aos poucos iam morrendo e somente nesses momentos Seu Manoel e Dona Maria deixavam aquela casa, para se despedir dos amigos, para velar seus corpos a noite inteira com o respeito e afeto de uma vida de cumplicidade e amor àquele chão amarelo.

Um dia Dona Maria também morreu. Não ficou doente, não sofreu, não foi ao hospital, apenas o dia amanheceu e ela não se levantou como de costume para cuidar daquela casa. Poucas pessoas no velório, nem todos os filhos puderam vir. Empregos, filhos, distância... Seu Manoel ficou sozinho naquela casa que para ele ainda era a maior do mundo, mas já não era a mais feliz.

Seu Manoel passou a acordar e se ver sozinho... Aprendeu a preparar sua comida, algo que nunca tinha feito antes. Não aprendeu a limpar a casa, não como Dona Maria. A poeira se acumulava, ele ouvia a voz da esposa mandando  ele tirar as botas antes de entrar em casa, ouvia os gritos animados das crianças que haviam avistado movimento na estrada, ouvia a voz forte do seu pai contando sobre como foi construir aquela casa numa época que as distâncias pareciam muito mais distantes. Seu Manoel se sentia tão solitário que passou a conversar com aquelas vozes... Ele não tomava banho porque Dona Maria não estava lá para mandar, ele já não preparava as refeições porque era triste comer sozinho.

A chuva era cada vez mais escassa, a poeira cada vez maior. Seu Manoel sentava na varanda dias e dias e ia ficando tão amarelado e tão envelhecido quanto aquela casa. Um dia sua filha apareceu para lhe visitar e vendo o estado do pai, sujo e conversando sozinho decidiu que ele não poderia mais viver assim. Seu  Manoel se recusou a sair, disse que morreria naquela casa como seu pai. Mas pessoas vieram, deram-lhe remédios e ele foi arrancado de lá.

Hoje seu Manoel não tem mais nome, seu genro e chama de “velho”.  O aceita em casa por causa da sua aposentadoria. Seu Manoel não tem mais a cor da poeira, tem uma cor pálida de quem nunca sai de um quarto minúsculo. Ela toma muitos comprimidos, mas ainda assim ouve as vozes, de Dona Maria, dos filhos pequenos e do seu velho pai pedindo-lhe que cuide da casa. Seu Manoel não pode cumprir o que prometeu ao pai, ele não consegue mais nem se levantar sozinho, ele não tem mais vontade própria, ele deixou de ser Rei.

A velha casa foi posta a venda há muito tempo, mas ninguém quis comprar, A chuva é cada vez mais escassa, a poeira cada vez maior. Quando vendida, aquela pequena terra será dividido por nove filhos, não vai dar quase nada... por isso a velha casa fica esquecida, na beira da estrada, abandonada, empoeirada... Ela é triste mas ainda conserva o orgulho de um dia ter sido a casa mais feliz do mundo.

Eu sei disso porque passei por lá, eu estava de carro mas parei como os antigos paravam em seus cavalos. Parei porque quando a gente vê uma casa na beira da estrada a gente tem que parar. Parei para um dedim de prosa e aquela velha casa me contou...

 

 

 
 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Minha Paralisia Facial




Por Raquel Rocha

Esse texto é sobre um problema que poucas pessoas conhecem
É sobre o pior atendimento médico da minha vida
É sobre senhoras com pouco estudo e muita sabedoria
É sobre desapego

Assistir ao Fantástico semana passada foi como voltar no tempo... Eu tive Paralisia Facial, foi uma das piores experiências da minha vida mas que me ensinou muito.

Ocorreu há cerca de 13 anos, eu era jovem, na época eu trabalhava 20 horas por dia, nas outras 4 horas eu rolava na cama preocupada com as pendências que haviam ficado para o dia seguinte. Forcei-me até o limite do limite, do limite, físico e mental até que um dia acordei com o rosto dormente e em cerca de três horas o lado esquerdo ficou TOTALMENTE paralisado.

Eu não tinha a mínima ideia do que era,  nunca tinha visto ninguém com aquilo, não sabia nem o nome. Liguei para todos os neurologistas da cidade e nenhum tinha vaga para me atender, nem por plano, nem particular, nem pagando com meu rim.  Fiz algo que não gosto, que foi pedir para um “alguém importante” ligar para um médico e pedir que ele me encaixasse. Assim foi feito e eu fui para o Tal consultório passar por um dos piores atendimentos da minha vida.

Apesar da consulta ser uma fortuna, a secretária me olhava de cara feia, pensando no tempo a mais que passaria no consultório.  A consulta havia sido marcada para 16:00 horas. Em meu desespero, com metade da cara paralisada fui pra lá as 15:00. Fiquei sentada nessa recepção por mais de 6 horas, o rosto parecia entortar cada vez mais, o desespero aumentava, e eu via paciente após paciente entrar e sair e minha vez nunca chegava...

As 21:30 fui chamada pelo médico. Entrei na sala dele com a esperança de quem estava adentrando na luz mas na verdade estava adentrando na escuridão. Ele mal olhou para mim, deu duas batidas no meu joelho e foi logo prescrevendo os exames, sem olhar para mim disse que 90% dos casos deixam sequelas.

Eu comecei a chorar, não sei se pela sentença das sequelas (desnecessárias naquele momento) ou se pelo descaso do único médico que eu tinha achado para me atender. Não sei se alguém aqui já viu alguém com paralisia chorar mas é uma coisa monstruosa, só um lado comprime, só um lado sai lágrimas... Meu choro inesperado não esticou a consulta que durou menos de 5 minutos.

Saí da sala daquele homem estarrecida e fui pro balcão marcar a data de retorno. Não havia data de retorno. Na semana seguinte ela estaria em uma cidade, na outa semana na outra e sua rotina de pop star não lhe permitiria me ver em menos de 40 dias.

Fui para casa com aquelas solicitações de exame na mão sem acreditar que nada daquilo estivesse acontecendo, nem a paralisia, nem o médico monstro no atendimento, nem eu monstra na aparência. Eu simplesmente não sabia o que fazer.

Acho que caminhava entorpecida, a vontade de chorar tinha cessado, minha vida, minha rotina passava na minha cabeça como um filme.

Naquela noite deitei na cama e consegui agradecer a Deus por estar viva. E daí as sequelas? Meu rosto não dizia quem eu era... Meu rosto era só minha aparência.

Minha paralisia era tão forte que eu não conseguia fechar os olhos. Nessa noite tive que comprar uma pomada passar nos olhos para evitar o ressecamento das córneas e fechar os olhos com esparadrapo. (pomada receitada por mim mesma, a partir de pesquisas do meu marido na internet de pulso telefônico - não façam isso)

Acordei no dia seguinte com o rosto ainda TORTO mas com o coração incrivelmente EM PAZ. Joguei as solicitações de exame do médico fora porque não teria a quem mostrar os exames. (não façam isso jamais)

Comecei a me tratar com tudo que me indicavam. Tudo mesmo. Cada senhora que me encontrava na rua me passava um chá diferente e toda vez que eu ia numa loja de folha me aparecia uma outra senhora me receitando mais um chá. Indicaram-me uma rezadeira. Eu não tenho vergonha de dizer não gente, EU FUI NA REZADEIRA, não só um dia, mas durante 15 dias de manhã cedo, quando sol ainda não estava alto. Ela me rezava, passava os galhos em mim e me dizia as palavras de conforto que o Sujeito Neurologista com não sei la quantos anos de faculdade não aprendeu a dizer.

Fiz fisioterapia também, receitada não por neurologista, mas por um amigo médico de outra especialidade. Tornei-me amigas das fisioterapeutas que me davam dicas, me davam choques no rosto e a gente ria por eu não sentir absolutamente nada. Na maca da fisioterapia um monte de gente de aproximava com conselhos. Mandaram-me mascar chiclete o tempo para exercitar os músculos da face e eu mascava uns 50 chicletes por dia (menos na hora da reza). Aprendi fazer massagem facial para estimular a musculatura, usava pomadas e um gel.

Nesse período comecei a fazer uma auto-análise. Aprendi a perguntar “Por que” e a buscar respostas. “Por que eu tive essa paralisia”? “Por que me senti como se o mundo estivesse acabando?” “Por que preciso de um rosto para me reconhecer?”  Não sabia que eu a Raquel Psicanalista estava nascendo ali.

Não me preocupava se as sequelas ficariam ou não... eu ficava feliz com cada melhora, agradeci infinitamente a Deus quando consegui fechar os olhos sozinha pela primeira vez.

Da mesma forma que encontrei pessoas generosas encontrei muita gente ignorante que me olhava como se eu fosse uma anomalia, algumas riam, outras não conseguiam disfarçar o olhar. Essas pessoas também me ensinaram muito, com elas eu aprendi a nunca agir assim, por mais estranho que o outro fosse.

Aos poucos fui melhorando. Não sei dizer o que me curou, se a fé, se as rezas, se os galhos passados, se a fisioterapia, se os 30 chás com gosto terríveis que tomei direitinho, se a paz que fez morada em meu coração, ou se tudo isso junto. Passei cerca de um ano convivendo com os sintomas, mas foi um excelente ano.

Todo esse desabafo vem 13 anos depois porque ao assistir a reportagem eu percebi que essa que poderia ter sido uma piores experiências da minha vida na verdade foi uma das melhores. Ficar com aparência monstruosa me tornou mais humana. E eu sou muito grata por ter passado por isso.
Nos decorrer desses anos em diversos momentos lembrei dos anjos desconhecidos que cuidaram de mim, daquela rezadeira de seios fartos, sorriso largo e palavras sábias, das senhoras que me encontravam na rua e diziam “Minha fia, tenho um receita que vai fazer você ficar boazinha logo”, das fisioterapeutas que me recebiam com abraços, do médico de outra especialidade que se arriscou para cuidar de mim, do senhor raizeiro que repetia o modo de preparo das ervas pra mim com preocupação de avô... "A fia ficou boazinha." No fim de tudo, acho que fui curada pelo amor...

Você deve estar se perguntando se eu fiquei com sequelas. Fiquei sim, mas não gosto de chamar de sequelas, gosto de chamar de marcas, as maiores delas estão na alma e são lindas.



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Importante:

NÃO RECOMENDO A DECISÃO QUE TOMEI DE FAZER TRATAMENTO ALTERNATIVO PARA NINGUÉM. Por favor não façam como eu fiz, minha decisão foi uma decisão de desespero e desapego. Recomendo que façam os exames, encontrem um bom neurologista e façam o tratamento exatamente como ele prescrever. Minha opção deu certo para mim por razões que não sei explicar, mas eu ainda acredito totalmente na medicina tradicional.


domingo, 16 de outubro de 2016

A MORTE E O AMOR EM TODOS OS CANTOS DA CASA

 
Por Raquel Rocha
Comunicóloga,  Economista
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Especialista em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna

 Dia 14/10/2016

 
A viagem foi exaustiva, das 11 da noite às 03 da madrugada. Viajar à noite não é problema, mas quando você está preparada pra dormir e recebe uma notícia de morte, então tudo fica meio surreal.

Quatro horas na estrada. Quem já passou por algo assim sabe que a pior parte é a chegada, talvez só não seja pior que a saída da pessoa amada ao cemitério... E assim foi a chegada, chegamos com nossas lágrimas, chegamos para viver o triste momento da despedida. Já estava tudo arrumado, caixão, coroa de flores, mas faltava o local. Cidade pequena não tem lugar para velório, as pessoas são veladas em casa mesmo. Ocorre que alguém havia quebrado a chave dentro da fechadura nesse mesmo dia, e a porta de casa da minha mãe não abria.  Minha avó estava sendo velada num local improvisado com 3 pessoas da família e mais 4 visitantes. Não sei qual a palavra que define a pessoa que vai ao velório... na dúvida, fica visitante mesmo.

A fechadura foi quebrada, uma pequena procissão as 03 da madrugada de onze pessoas acompanharam o translado do caixão. Onze pessoas, um caixão, cadeiras, suporte do caixão, livro de assinatura, tapete, coroa de flores...   A pequena procissão poderia ter sido a mais surreal das cenas mas ainda não foi. Trouxemos tudo pela rua e remontamos o pequeno velório na sala da casa.

Com a família aumentada nossos 4 visitantes se sentiram confortáveis para irem descansar em suas casas. Não chegaria mais ninguém. Fechamos a porta. Novamente estávamos na intimidade da família, da nossa casa. Incrivelmente aquele caixão no meio parecia tão natural... como se o lugar dele fosse ali na nossa casa, entre nós.
As crianças não tinham medo, conversavam com a bizavó já gelada, perguntavam coisas, sabiam que o momento não era de brincadeira, mas também sabiam que não era de desespero, havia respeito, serenidade e saudades.
Assim vimos o dia amanhecer, sentados na sala, conversando, relembrando, com minha avó no meio de nós.
Com o amanhecer do dia o cansaço foi se fazendo mais forte que nós, íamos deitar aos poucos...  deixar a sala era difícil tínhamos a sensação de que estávamos deixando-a sozinha... Eu queria colocar um colchão no chão para dormir ao lado do caixão e só não o fiz por falta de espaço. As 6 da manhã chegou minha vez de ser derrotada pelo cansaço, fui para o quarto ao lado, o corpo desabou numa cama, mas de alguma forma continuei na sala. Ouvia tudo, sentia tudo,
Duas horas depois levantei, o corpo pesado queria continuar deitado mas eu o arrastei para a posição vertical. Não havia tido troca de roupa, levantei pronta para continuar no velório. Sonolenta, abri a porta do quarto e me vi de cara com o caixão dando "Bom dia vó...". Toquei em sua testa, como quem toca na testa de uma criança febril esperando que ela esteja menos quente. Mas minha avó não estava menos fria.
Tudo continuou tão real como num filme de Almodóvar, tão irreal quanto os velórios americanos. Sempre achei estranho as pessoas comerem, falarem de comida nos velórios americanos, mas ali estava eu, tomando café , falando do almoço, do que seria feito, das pessoa que chegariam. Ninguém falava em hora de enterro, era como se quiséssemos deixá-la com a família pra sempre.
Não achem esse texto mórbido, ou achem se quiserem... pouco importa, mas de fato a morte nunca tinha se apresentado de forma tão natural para mim.
Continuamos só nós... pouquíssimas pessoas chegavam, um ou outro idoso da vizinhança que havia recebido a notícia e foram ao velório mesmo sem ter conhecido minha avó. Tanto desconhecimento decorre do fato de que minha avó morou a vida inteira em outro estado, Há quatro anos começou a apresentar sintomas de Alzheimer, na época meu avó já estava de cama, sem lucidez alguma. Trouxemos ambos para a Bahia, as filhas se revezaram bravamente no cuidado dos dois idosos. Minha avó chegou andando, conversando, mas não conhecia ninguém, seu olhar era distante, era como se ela não estivesse entre nós. Eu perguntava: “Vó, a senhora sabe quem sou eu?”  Ela: “Não...” Eu explicava “Sou Raquel vó, sua neta” Algo clareava na mente dela e ela dizia com olhar de reconhecimento “Ah, é a Raquelzinha!”. Sentia que ela havia me reconhecido mas 40 segundos depois quando perguntava novamente “Vó, sabe quem sou eu?” Ela respondia “Não...”
Em pouco tempo ela não sabia mais quem era ela. Minha avó agia como criança, quebrava as coisas, fugia de casa, se machucava. Um dia fugiu da cama a noite, espalhou bananas pela casa e acabou escorregando nessas bananas. Quebrou a bacia e não andou mais. O Alzheimer a levou aos poucos nesses quatro anos, acamada ela chamava minha mãe de sua mãe, já não comia sozinha, as filhas lhe davam mamadeira, foi deixando de falar, foi perdendo peso apesar da quantidade de mamadeiras que tomava, seu olhar cada vez mais perdido, sua fala mais fraca. No último ano ela mal abria o olho, não falava mais nada, a vezes gemia. Ela sofria.
Minha vó não havia morrido na noite passada, minha avó morreu aos poucos durante quatro anos. Tivemos quatro anos para elaborar essa perda, vivemos esse luto por 4 anos, por isso seu corpo no meio da sala não nos causava desespero, por isso aquela sensação de paz, de descanso, de que ela estava finalmente livre das dores, da sua mente embaralhada, do seu corpo que definhava.
Nada para minha avó foi fácil, nem sua vida nem sua morte. Minha avó perdeu sua mãe quando era muito pequena, seu pai casou-se novamente. Minha avó foi dada (dada mesmo) em casamento ao meu avô, 14 anos mais velho que ela, e que já havia sido casado com sua irmã mais velha e esta havia morrido de parto. A mais velha não deu conta, leve a mais nova, como uma mercadoria. Foi assim.
Meu avô não era fácil, era grosso, falava gritando. Minha avó teve 6 filhos com ele. Acredito que a vida com ele era menos ruim que a vida na casa do pai, porque ela nunca falou em se separar. Será que as mulheres de antigamente sabiam que tinham o direito de se separar? O fato é que minha avó permaneceu ao lado do meu avô por toda sua vida, cuidou dele até onde aguentou. Seu nome foi o último que ela deixou de falar.  Talvez o amasse, dentro do que ela conhecia do amor.
Hoje, meu avô, acamado na casa ao lado foi comunicado da morte dela. Mas ele não sabia quem era ela, não sabia o que era a morte. Meu pai o trouxe de cadeira de rodas para perto do caixão, ele olhou para o caixão como quem olhava para nada. Ele também já não está aqui, se foi antes dela.
Mais familiares chegaram...  Nos abraçávamos naquela sala vazia na cumplicidade da família, família que se entende só pelo olhar. Minha irmã chegou, parecia sofrida, ela morou com minha mãe uma parte desses quatro anos, e a ajudou cuidar da minha avó.
Um pastor chegou, ficou por cerca de 20 minutos e disse algumas palavras. Minha avó passou a vida na igreja católica mais havia de batizado na igreja evangélica antes de ficar doente. Acho que ela teria gostado das palavras ditas.
O dia pareceu durar uma semana, mas estávamos bem, estávamos juntos esticando nosso tempo com ela. Notei que nenhum jovem apareceu, nenhuma amiga, nem minha, nem das minhas irmãs, nem dos meus sobrinhos...  Disseram que iam, mas de fato, ninguém foi. Acho que os jovens não gostam de velório, num velório a morte nos esfrega na cara que nosso fim será aquele. E para que pensar em morte quando temos tanta vida?
Eu também não ia muito a velórios, não ia porque não sabia o quanto era importante ir. Mas ano passado meu sogro faleceu, inesperadamente, quando parecia forte e saudável, e eu me lembro de cada rosto amigo que esteve conosco nesse dia. Depois disso, passei a ir a todos os velórios.
Os idosos sempre vão, como se eles estivesse fazendo um depósito. Como se sua ida aos velórios dos outros garantisse que pessoas irão aos seus.  Eu acho que funciona... Porque nessa vida tudo que a gente planta a gente colhe.
O enterro foi no final da tarde, o sol já se preparava para se por. Não podíamos adiar mais. Não vou relatar a parte do cemitério... que como disse no começo desse texto é pior parte. Deixar o corpo de uma pessoa amada no cemitério é doloroso. Não gosto do formato dos cemitérios, gostaria que minha vó tivesse ido pata uma cápsula orgânica e se transformado em uma linda árvore.
Eu acho que do dia de hoje vou lembrar dela em casa, no meio da sala com a família, mesmo que dentro daquele caixão estivesse só seu corpo. Vou lembrar da saudade que sentimos, do carinho, das lembranças que lembramos, dos abraços em família, dos olhares que diziam mais que palavras, vou lembrar das crianças entendendo a morte como algo natural, das três irmãs que se despediam da mãe como se quatro anos de preparo não houvesse sido suficiente.  Nem uma vida inteira seria.
Na cidade grande onde moro os mortos não são mais velados em casa, existem locais para isso, locais onde sai um corpo e entra outro, como numa linha de produção. Locais frios. Acho os velórios em casa mais respeitoso, mais carinhosos. Não entendo por que as pessoas querem tanto se distanciar da morte, tiram os mortos das suas casas, não deixam as crianças verem, não entram em cemitério, não falam no assunto... Estão negando seu próprio caminho.
Parte desse texto foi escrito ao lado do seu caixão, a parte final agora, na volta do cemitério. Escrevo tentando sublimar mas também tentando entender. Minha avó me ensinou muitas coisas  em vida porém a mais importante ela me ensinou hoje, me ensinou que nossa partida dessa vida pode ser repleta de paz, de amor e de carinho.

Gosto de pensar em minha avó entrando no reino dos céus com uma chuva de pétalas de rosas e um monte de gente amada a esperando. Dê um abraço na tia Maria e no tio João por mim vó. Fiquem juntos aí em cima como estiveram juntos aqui na terra, desfrutem do acolhimento de Deus e da sensação de uma vida completa, na qual muitas coisas faltaram, porém o mais importante sobrou: O AMOR.