domingo, 16 de outubro de 2016

A MORTE E O AMOR EM TODOS OS CANTOS DA CASA

 

14/10/2016

 

A viagem foi exaustiva, das 11 da noite às 03 da madrugada. Viajar à noite não é problema, mas quando você está preparada pra dormir e recebe uma notícia de morte, então tudo fica meio surreal.

Quatro horas na estrada. Quem já passou por algo assim sabe que a pior parte é a chegada, talvez só não seja pior que a saída da pessoa amada ao cemitério... E assim foi a chegada, chegamos com nossas lágrimas, chegamos para viver o triste momento da despedida. Já estava tudo arrumado, caixão, coroa de flores, mas faltava o local. Cidade pequena não tem lugar para velório, as pessoas são veladas em casa mesmo. Ocorre que alguém havia quebrado a chave dentro da fechadura nesse mesmo dia, e a porta de casa da minha mãe não abria.  Minha avó estava sendo velada num local improvisado com 3 pessoas da família e mais 4 visitantes. Não sei qual a palavra que define a pessoa que vai ao velório... na dúvida, fica visitante mesmo.

A fechadura foi quebrada, uma pequena procissão as 03 da madrugada de onze pessoas acompanharam o translado do caixão. Onze pessoas, um caixão, cadeiras, suporte do caixão, livro de assinatura, tapete, coroa de flores...   A pequena procissão poderia ter sido a mais surreal das cenas mas ainda não foi. Trouxemos tudo pela rua e remontamos o pequeno velório na sala da casa.
Com a família aumentada nossos 4 visitantes se sentiram confortáveis para irem descansar em suas casas. Não chegaria mais ninguém. Fechamos a porta. Novamente estávamos na intimidade da família, da nossa casa. Incrivelmente aquele caixão no meio parecia tão natural... como se o lugar dele fosse ali na nossa casa, entre nós.
As crianças não tinham medo, conversavam com a bizavó já gelada, perguntavam coisas, sabiam que o momento não era de brincadeira, mas também sabiam que não era de desespero, havia respeito, serenidade e saudades.
Assim vimos o dia amanhecer, sentados na sala, conversando, relembrando, com minha avó no meio de nós.
Com o amanhecer do dia o cansaço foi se fazendo mais forte que nós, íamos deitar aos poucos...  deixar a sala era difícil tínhamos a sensação de que estávamos deixando-a sozinha... Eu queria colocar um colchão no chão para dormir ao lado do caixão e só não o fiz por falta de espaço. As 6 da manhã chegou minha vez de ser derrotada pelo cansaço, fui para o quarto ao lado, o corpo desabou numa cama, mas de alguma forma continuei na sala. Ouvia tudo, sentia tudo,
Duas horas depois levantei, o corpo pesado queria continuar deitado mas eu o arrastei para a posição vertical. Não havia tido troca de roupa, levantei pronta para continuar no velório. Sonolenta, abri a porta do quarto e me vi de cara com o caixão dando "Bom dia vó...". Toquei em sua testa, como quem toca na testa de uma criança febril esperando que ela esteja menos quente. Mas minha avó não estava menos fria.
Tudo continuou tão real como num filme de Almodóvar, tão irreal quanto os velórios americanos. Sempre achei estranho as pessoas comerem, falarem de comida nos velórios americanos, mas ali estava eu, tomando café , falando do almoço, do que seria feito, das pessoa que chegariam. Ninguém falava em hora de enterro, era como se quiséssemos deixá-la com a família pra sempre.
Não achem esse texto mórbido, ou achem se quiserem... pouco importa, mas de fato a morte nunca tinha se apresentado de forma tão natural para mim.
Continuamos só nós... pouquíssimas pessoas chegavam, um ou outro idoso da vizinhança que havia recebido a notícia e foram ao velório mesmo sem ter conhecido minha avó. Tanto desconhecimento decorre do fato de que minha avó morou a vida inteira em outro estado, Há quatro anos começou a apresentar sintomas de Alzheimer, na época meu avó já estava de cama, sem lucidez alguma. Trouxemos ambos para a Bahia, as filhas se revezaram bravamente no cuidado dos dois idosos. Minha avó chegou andando, conversando, mas não conhecia ninguém, seu olhar era distante, era como se ela não estivesse entre nós. Eu perguntava: “Vó, a senhora sabe quem sou eu?”  Ela: “Não...” Eu explicava “Sou Raquel vó, sua neta” Algo clareava na mente dela e ela dizia com olhar de reconhecimento “Ah, é a Raquelzinha!”. Sentia que ela havia me reconhecido mas 40 segundos depois quando perguntava novamente “Vó, sabe quem sou eu?” Ela respondia “Não...”
Em pouco tempo ela não sabia mais quem era ela. Minha avó agia como criança, quebrava as coisas, fugia de casa, se machucava. Um dia fugiu da cama a noite, espalhou bananas pela casa e acabou escorregando nessas bananas. Quebrou a bacia e não andou mais. O Alzheimer a levou aos poucos nesses quatro anos, acamada ela chamava minha mãe de sua mãe, já não comia sozinha, as filhas lhe davam mamadeira, foi deixando de falar, foi perdendo peso apesar da quantidade de mamadeiras que tomava, seu olhar cada vez mais perdido, sua fala mais fraca. No último ano ela mal abria o olho, não falava mais nada, a vezes gemia. Ela sofria.
Minha vó não havia morrido na noite passada, minha avó morreu aos poucos durante quatro anos. Tivemos quatro anos para elaborar essa perda, vivemos esse luto por 4 anos, por isso seu corpo no meio da sala não nos causava desespero, por isso aquela sensação de paz, de descanso, de que ela estava finalmente livre das dores, da sua mente embaralhada, do seu corpo que definhava.
Nada para minha avó foi fácil, nem sua vida nem sua morte. Minha avó perdeu sua mãe quando era muito pequena, seu pai casou-se novamente. Minha avó foi dada (dada mesmo) em casamento ao meu avô, 14 anos mais velho que ela, e que já havia sido casado com sua irmã mais velha e esta havia morrido de parto. A mais velha não deu conta, leve a mais nova, como uma mercadoria. Foi assim.
Meu avô não era fácil, era grosso, falava gritando. Minha avó teve 6 filhos com ele. Acredito que a vida com ele era menos ruim que a vida na casa do pai, porque ela nunca falou em se separar. Será que as mulheres de antigamente sabiam que tinham o direito de se separar? O fato é que minha avó permaneceu ao lado do meu avô por toda sua vida, cuidou dele até onde aguentou. Seu nome foi o último que ela deixou de falar.  Talvez o amasse, dentro do que ela conhecia do amor.
Hoje, meu avô, acamado na casa ao lado foi comunicado da morte dela. Mas ele não sabia quem era ela, não sabia o que era a morte. Meu pai o trouxe de cadeira de rodas para perto do caixão, ele olhou para o caixão como quem olhava para nada. Ele também já não está aqui, se foi antes dela.
Mais familiares chegaram...  Nos abraçávamos naquela sala vazia na cumplicidade da família, família que se entende só pelo olhar. Minha irmã chegou, parecia sofrida, ela morou com minha mãe uma parte desses quatro anos, e a ajudou cuidar da minha avó.
Um pastor chegou, ficou por cerca de 20 minutos e disse algumas palavras. Minha avó passou a vida na igreja católica mais havia de batizado na igreja evangélica antes de ficar doente. Acho que ela teria gostado das palavras ditas.
O dia pareceu durar uma semana, mas estávamos bem, estávamos juntos esticando nosso tempo com ela. Notei que nenhum jovem apareceu, nenhuma amiga, nem minha, nem das minhas irmãs, nem dos meus sobrinhos...  Disseram que iam, mas de fato, ninguém foi. Acho que os jovens não gostam de velório, num velório a morte nos esfrega na cara que nosso fim será aquele. E para que pensar em morte quando temos tanta vida?
Eu também não ia muito a velórios, não ia porque não sabia o quanto era importante ir. Mas ano passado meu sogro faleceu, inesperadamente, quando parecia forte e saudável, e eu me lembro de cada rosto amigo que esteve conosco nesse dia. Depois disso, passei a ir a todos os velórios.
Os idosos sempre vão, como se eles estivesse fazendo um depósito. Como se sua ida aos velórios dos outros garantisse que pessoas irão aos seus.  Eu acho que funciona... Porque nessa vida tudo que a gente planta a gente colhe.
O enterro foi no final da tarde, o sol já se preparava para se por. Não podíamos adiar mais. Não vou relatar a parte do cemitério... que como disse no começo desse texto é pior parte. Deixar o corpo de uma pessoa amada no cemitério é doloroso. Não gosto do formato dos cemitérios, gostaria que minha vó tivesse ido pata uma cápsula orgânica e se transformado em uma linda árvore.
Eu acho que do dia de hoje vou lembrar dela em casa, no meio da sala com a família, mesmo que dentro daquele caixão estivesse só seu corpo. Vou lembrar da saudade que sentimos, do carinho, das lembranças que lembramos, dos abraços em família, dos olhares que diziam mais que palavras, vou lembrar das crianças entendendo a morte como algo natural, das três irmãs que se despediam da mãe como se quatro anos de preparo não houvesse sido suficiente.  Nem uma vida inteira seria.
Na cidade grande onde moro os mortos não são mais velados em casa, existem locais para isso, locais onde sai um corpo e entra outro, como numa linha de produção. Locais frios. Acho os velórios em casa mais respeitoso, mais carinhosos. Não entendo por que as pessoas querem tanto se distanciar da morte, tiram os mortos das suas casas, não deixam as crianças verem, não entram em cemitério, não falam no assunto... Estão negando seu próprio caminho.
Parte desse texto foi escrito ao lado do seu caixão, a parte final agora, na volta do cemitério. Escrevo tentando sublimar mas também tentando entender. Minha avó me ensinou muitas coisas  em vida porém a mais importante ela me ensinou hoje, me ensinou que nossa partida dessa vida pode ser repleta de paz, de amor e de carinho.

Gosto de pensar em minha avó entrando no reino dos céus com uma chuva de pétalas de rosas e um monte de gente amada a esperando. Dê um abraço na tia Maria e no tio João por mim vó. Fiquem juntos aí em cima como estiveram juntos aqui na terra, desfrutem do acolhimento de Deus e da sensação de uma vida completa, na qual muitas coisas faltaram, porém o mais importante sobrou: O AMOR.
 


 

 




 

 

 

 




 

 

 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Importância do Sânscrito

Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna



No dicionário Michaelis encontramos o seguinte significado: “adj (sânsc samskrta, perfeito) 1 Relativo ou pertencente ao sânscrito ou escrito nele; sanscrítico. 2 Relativo à cultura índica clássica ou derivada dela.sm. Antiga língua da família indo-europeia; a língua clássica da Índia e do hinduísmo, em que está escrita a maioria da sua literatura desde os Vedas.”
A data do surgimento do Sânscrito é imprecisa. O Rig veda (Primeiro livro dos Veda e o mais importante deles) é um dos registros mais antigos do sânscrito. Ele reúne 1.028 hinos compostos em sânscrito védico.  Estima-se que o Rig veda foi escrito por volta de 1700–1100 a.C., durante o período védico. Apesar da data do Rig Veda, o Sânscrito védico pode ser muito anterior a essa época, apenas não temos registros.
O Sânscrito védico é uma forma arcaica do sânscrito, é a mais antiga língua dentre a família de línguas iranianas e europeias. A palavra Sâscrito vem de Saṃskṛtam. “Sam” quer dizer “junto” e “Kr” fazer, criar. Com o tempo o adjetivo verbal saṃskṛta passou a significar algo culto e refinado.
 O Sânscrito da era védica, também chamado de devabhāṣā que significa língua dos deuses, surgiu não como uma língua mas como uma maneira sofisticada de falar. O conhecimento do sânscrito indicava elevada colocação social desde a infância, ou seja, as pessoas nascidas nas castas mais altas eram educadas com o Sânscrito. Dessa forma no dicionário Aurélio o Sânscrito é definido como “Nome dado à antiga língua dos Brâmanes.”
O Sânscrito clássico é uma evolução do Sânscrito Védico. Enquanto o Sânscrito védico data 1700 a 1100 aC,  o Clássico tem seu registro mais antigo no século V a.C. com a primeira gramática do sânscrito, a de Pāṇini. Foi com Pāṇini que o devabhāṣā passou a se chamar Sânscrito. Estima-se que o sânscrito védico sobreviveu até a metade do primeiro milênio a.C quando começou a se transformar no O Sânscrito clássico.
William Jones, filólogo (estudioso da linguagem em escritos antigos) inglês nascido em 1746 descreveu o  Sânscrito da seguinte forma: “A linguagem Sânscrita, seja qual for sua idade, é de uma linda estrutura; mais perfeita que o Grego, mais copiosa que o Latim, e mais precisamente refinada que ambas, ainda compartilha com ambos uma forte afinidade, tanto nas raízes dos verbos quanto nas formas de gramática, que não pode ter sido criada por acidente; é, na verdade, tão forte, que nenhum filólogo poderia examinar as três sem acreditar que tenham nascido de uma fonte comum, que, talvez, nem exista mais.” (Sir William Jones, falando com a Asiatic Society em Calcutá (atual Kolkata) em 2 de fevereiro, 1786)
O Sânscrito nunca foi considerado uma língua morta devido ao seu uso frequente em textos e cânticos religiosos, em especial no hinduísmo mas também no budismo. A maioria das línguas faladas atualmente na Índia (são 23 línguas oficiais) são derivadas ou influenciadas pelo sânscrito. Apesar disso é um erro achar que todos os indianos falam Sânscrito. Numa tentativa de resgatar a sua importância o próprio Sânscrito foi declarado como língua oficial. O censo indiano de 1991 numerou 49.736 falantes fluentes de sânscrito. A Índia, inclusive, tem um jornal diário em Sânscrito, o Sudharma que existe desde 1970.
O sânscrito ofereceria acesso direto a um plano superior. Acredita-se que os mantras foram revelados aos grandes mestres em sânscrito, ou seja, o som dos mantras em sânscrito tem vibrações que conduzem a mente para determinado objetivo. O Som é uma propagação de onda mecânica, são ondas de deslocamento, densidade e pressão que se propagam em meios materiais. Assim, entende-se no Yoga que as vibrações das palavras podem modificar os condicionamentos da mente.
A língua sânscrita é formada por raízes. Exemplo: Mantra. “Man” significa  mente e “Tra” significa liberação, portanto a palavra Mantra pode ser traduzida como instrumento para liberar (ou conduzir) a mente. Além da palavra “mantra”, diversas outras palavras da língua portuguesa são derivadas do Sânscrito, como Ioga que vem de Yoga e significa  "integração". Já a palavra Açúcar deriva do Sanscrito sakkar ou sarkara, que significa “grãos de areia”ou “grãos doces”.  O conceito de zero também nasceu com os indianos por volta de 600 a.C, a palavra árabe “çifr” que quer dizer vazio, zero, veio do sânscrito ûnya, vazio.

Além ser um portal de  acesso direto a um plano superior, o Sânscrito também é uma chave para o conhecimento da história e da cultura original indiana. Conhecer o sânscrito nos permite compreender certos escritos que podem ter sofrido modificações na tradução para outras línguas.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O QUE É TANTRA?




Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna


A data não é precisa, no livro “Tantra- A Ciência Eterna” encontramos que o Tantra foi primeiro introduzido na Índia há 5000 anos aC por Sadashiva, um grande iogue que viveu nas montanhas do Himalaia (pág 17).  O tantra é uma filosofia de pensamento com características matriarcais, sensoriais, e voltadas para a natureza. A maioria das sociedades antigas carregavam consigo a filosofia tântrica, eram sociedades com divindades femininas. Assim também era o povo drávida, que vivia Índia antiga.

Acredita-se que por volta de 1500 a.C., a Índia foi invadida arianos (há teorias que dizem que eles eram oriundos do Irã outros da América do Norte) e estes povos nômades dominaram a civilização hindu (povo drávida). Os arianos (vedas) implantaram na índia sua cultura patriarcal e repressora o que acabou por dissolver (ou marginalizar) o tantrismo. Temos então o início da Era Védica caracterizado pelo sistema de castas (Brâmanes, xátriasvaixás e sudras)

O livro “A Tradição do Yoga” de George Feuerstein traz uma cronologia diferente, conforme os tópicos abaixo:
·         Era Pré-Védica 6500-4500 aC
·         Era Védica (4500-2500 aC
·         Era Brahmândica 2500-1550 aC
·         Era Pós Védica ou Upanishádica 1500-1000 aC
·         Era Pré-Clássica ou Épica 1000 -100 aC
·         Era Clássica 100 - 500 dC
·         Era Tântrica ou Purânica 500 – 1300 dC
·         Era Sectária 1300 – 1700 dC
·         Era Moderna 1700 – Época Atual

Segundo George Feuerstein “Oculto a Deusa que está no âmago de muitas escolas tântricas, já existia no princípio da época védica. Os mestres praticantes do Tantra só aproveitaram-se das escolas sagradas e elementos rituais já existentes que tinham por objeto a Deusa, e que sobreviveram até hoje , especialmente nas comunidades rurais da índias. Alguns estudiosos, por isso, atribuíram ao tantra uma antiguidade tão grande quanto a dos Vedas, se não maior. Enquanto fenômeno literário, porém, o tantra não parece ter surgido antes da primeira metade do primeiro milênio dC.” (grifo nosso)

Essa hipótese da invasão de povos arianos na Índia tem sido questionada desde o final do século XIX. Descobertas feitas a partir de escavações mostram que os vedas estavam na India há muito mais tempo, a própria literatura Védica não faz menção a suposta invasão. Mas, tendo havido invasão ou não, o fato é que o Tantra só ressurgiu por volta de 500 dC na India   Anteriormente a esse período a imperava na Índia tradição védica de separação do homem e natureza, como se o primeiro devesse superar o segundo para alcançar sua espiritualidade. Para isso os brâmanes meditavam durante horas e até dias, negando as necessidades do corpo. Os vedantas usavam uma técnica de meditação chamada pratyahara que objetivava suprimir os cinco sentidos, também entregavam a práticas extremamente dolorosas como meditar sobre brasas, negando a dor física. Os vedas buscavam a libertação do espírito através da negação da matéria. O Tantra não despareceu completamente durante esse período, mas era praticado/vivido secretamente, como uma filosofia proibida.

O Tantra ressurge ligando o homem à natureza e vendo o corpo físico como uma manifestação do divino. A ideia do corpo como um elemento importante de integração o indivíduo e o cosmo leva o homem a uma série de práticas com o corpo para alcançar tal integração, desenvolve-se assim as técnicas do Hatha-yoga. Podemos dizer que  o Hatha Yoga teve sua origem no Tantra, seu início data do século XIII com Matsyendra e Gorakshanatha. Através dos Asanas o corpo buscava se iluminar e dessa forma se conectar com a consciência suprema.

A Palavra "Tantra" é um termo sânscrito, "Tan" significa expansão e "Tra" libertação. Tantra é aquilo que liberta da escuridão. Essa expansão e libertação da escuridão é feita através do controle da mente. Ao mesmo tempo, a palavra Tantra significa teia, representando a ideia de que todas as coisas do universo estão interconectadas entre si.

O Tantra tem uma visão positiva do universo encarando o mundo  fenomenal como uma manifestação da consciência essencial e infinita, essa filosofia vê no corpo humano um templo e dessa forma carne e espírito fundem-se. É através do nosso corpo que poderemos evoluir e compreender o universo.

Com a visão de que toda existência surge da mesma Consciência Infinita, o princípio inerente ao Tantra é que cada indivíduo, ao penetrar no âmago de sua consciência individual, pode vivenciar a unidade em todas as coisas e transcender o fluxo turbulento da percepção sensorial e perspectiva fragmentadora do mundo relativo. O objetivo final de Tantra é a união com a Consciência ilimitada e não-qualificada– um estado além do ego ilimitado e da sua fragmentação da realidade.” (Tantra- A Ciência Eterna pág 9)

Existem quatro tipos de tantra: O Tantra do período Pré-Clássico, dravídico; O Tantra Clássico, adaptado aos costumes arianos (os arianos acabaram por absorver determinadas características culturais dos drávidas) e o Tantra Medieval, renascido em 500 dC que sobrevive até nossos dias. Para o Mestre Sérgio Santos, o Tantra, o Sámkhya e o Yôga são três das mais antigas filosofias indianas.

“Durante a sua evolução histórica, o tantra ultrapassou as fronteiras da Índia. Pode-se observar a sua influência principalmente na China e Tailândia, Tibete e Camboja, onde foi incorporado pelo budismo, lamaísmo e taoísmo, respectivamente. Visto a proposta do Swásthya Yôga ser a autenticidade e pureza das tradições, baseia-se essencialmente no tantrismo sob a óptica hindu. Foi na Índia que surgiu o yôga original, o Dakshinacharatantrika-Niríshwarasámkhya Yôga, hoje conhecido por Swásthya Yôga, como tal, está intimamente ligado à tradição e cultura dessa época, pelo que o essencial é perceber isso mesmo: as suas raízes, tradições, o yôga original. (Tantra - Breves Noções, Texto publicado na revista Surya Online . Anabela Silva)

O Tantra reverencia a divindade feminina. Na visão do Tantra a força feminina é a energia da criação, da sabedoria e da intuição. Shákti é poder divino feminino, aspecto feminino transcendente e sagrado. Pode ser representada por várias deusas, assim Sarasvati é a Shakti de Brahma, Parvati é a Shakti de Shiva e Lakshmi é a Shakti de Vishnu. É considerada a personificação da energia cósmica em sua forma dinâmica. A base filosófica do tantrismo é o conceito de Shaktí e Shiva: representando os princípios feminino e masculino. Shaktí é energia, simboliza o poder dinâmico e Shiva o poder estático.

Shákti é o poder (força e energia) que cria e transforma. Esse poder está nas mulheres, pois é ela quem dá a luz. O tantrismo prega a libertação da essência através da matéria, Shiva é Consciência, Parvati é matéria, por isso o tantrismdiz-se que Shiva sem Shaktí é shava, um cadáver. A consciência (Shiva) precisa da matéria (Parvati) para se manifestar. Sem Shákti, a natureza não teria forma e sem Shiva, a natureza não teria como manifestar-se. O poder criador manifesta-se devido à presença da criação e vice-versa.

Na conclusão desse estudo percebemos que é impossível estabelecer datas, bem como a ordem cronológica e quais acontecimentos de fato ocorreram, uma vez que se trata de uma época remota na qual ainda não existia o registro escrito. Depois de consultada várias obras chegamos a conclusão de que não há um consenso em relação a origem do tantra, talvez porque ela existisse desde sempre. Mas do que tentar entender é tantra é necessário perceber se essa filosofia faz sentido na forma de viver.

REFERÊNCIAS

Tantra - Breves Noções, Texto publicado na revista Surya Online . Anabela Silva

Yôga, Sámkhya e Tantra; Mestre Sérgio Santos; Uni-Yôga; pág. 80

(Tantra- A Ciência Eterna 1982, pág 17. Publicações A’nanda M’arga). Em outros documentos essa filosofia hindu data de 500 dC.

A Tradição do Yoga” de George Feuerstein (2001)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Diferença entre Transtorno Obsessivo-compulsivo e o Transtorno de Personalidade Obsessivo-compulsiva

Diferença entre Transtorno Obsessivo-compulsivo e o Transtorno de Personalidade Obsessivo-compulsiva


Por Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, 
Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Pós-graduanda em Neuropsicologia
Membro da Academia de Letras de Itabuna

A nomenclatura idêntica causa muita confusão, com os códigos do CID 10 e DSM V fica mais fácil distinguir:
·         O Transtorno Obsessivo-compulsivo ou TOC 300.3 (F42)
·         O Transtorno de Personalidade Obsessivo-compulsiva ou Personalidade Anancástica  301.4 (F 60.5)

Embora tenham nomes parecidos as manifestações clínicas são bem diferentes. O Transtorno Obsessivo-compulsivo 300.3 (F42) é caracterizado pela presença de obsessões (pensamentos intrusivos) e compulsões. O objetivo das Compulsões é reduzir o sofrimento causado pelas Obsessões ou evitar um evento temido.

Já o Transtorno da Personalidade Pbsessivo-compulsiva 301.4 (F 60.5) NÃO é caracterizado por pensamentos intrusivos, imagens ou impulsos e, portanto, não gera as compulsões (comportamentos repetitivos). Transtorno de Personalidade Obsessivo-compulsiva é um padrão mal-adaptativo duradouro caracterizado pela preocupação excessiva com ordem, perfeccionismo e controle mental e interpessoal rígido.

Eles aparecem em categorias diferentes do DSM V (ver tabela). O Transtorno Obsessivo-compulsivo 300.3 (F42) está na categoria número 6 dos “Transtornos Obsessivo-Compulsivos”. O Transtorno de Personalidade Obsessivo-compulsiva, também chamado de Personalidade Anancástica 301.4 (F60.5) está na categoria 19 “Transtornos de Personalidade”

Quando atendidos os critérios tanto para o transtorno obsessivo-compulsivo quanto para transtorno da personalidade obsessivo-compulsiva, ambos devem ser registrados.

Abaixo da tabela segue descrição detalhada de cada um dos transtornos segundo o DSM-V.
  

DIVISÃO DO DSM V

1
Transtornos Do Neurodesenvolvimento
2
Espectro Da Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos
3
Transtorno Bipolar e Transtornos Relacionados’
4
Transtornos Depressivos
5
Transtornos De Ansiedade
6
Transtorno Obsessivo-Compulsivo
7
E Transtornos Relacionados (235)
8
Transtornos Relacionados a Trauma e a Estressores
9
Transtornos Dissociativos
10
Transtorno de Sintomas Somáticos e Transtornos Relacionados
11
Transtornos Alimentares
12
Transtornos da Eliminação
13
Transtornos do Sono-Vigília
14
Disfunções Sexuais
15
Disforia de Gênero
16
Transtornos Disruptivos, do Controle de Impulsos e da Conduta
17
Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos
18
Transtornos Neurocognitivos
19
Transtornos da Personalidade
20
Transtornos Parafílicos
21
Outros Transtornos Mentais
22
Transtornos do Movimento Induzidos por Medicamentos e outros Efeitos Adversos de Medicamentos
23
Outras Condições que Podem ser Foco da Atenção Clínica


TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO300.3 (F42)

Critérios de Diagnóstico

A---- > Presença de obsessões, compulsões ou ambas:

São consideradas Obsessões:
1. Pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que, em algum momento durante a perturbação, são experimentados como intrusivos e indesejados e que, na maioria dos indivíduos, causam acentuada ansiedade ou sofrimento.
2. O indivíduo tenta ignorar ou suprimir tais pensamentos, impulsos ou imagens ou neutralizá-los com algum outro pensamento ou ação. (DSM V pág 237)

São Consideradas Compulsões
1. Comportamentos repetitivos (p. ex., lavar as mãos, organizar, verificar) ou atos mentais (p. ex., orar, contar ou repetir palavras em silêncio) que o indivíduo se sente compelido a executar em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras que devem ser rigidamente aplicadas.
2. Os comportamentos ou os atos mentais visam prevenir ou reduzir a ansiedade ou o sofrimento ou evitar algum evento ou situação temida; entretanto, esses comportamentos ou atos mentais não têm uma conexão realista com o que visam neutralizar ou evitar ou são claramente excessivos. (DSM V pág 237)

B---- >  As obsessões ou compulsões tomam tempo (p. ex., tomam mais de uma hora por dia) ou causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

C---- >  Os sintomas obsessivo-compulsivos não se devem aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento) ou a outra condição médica.

D---- > A perturbação não é mais bem explicada pelos sintomas de outro transtorno mental (p. ex., preocupações excessivas, como no transtorno de ansiedade generalizada; preocupação com a aparência, como no transtorno dismórfico corporal; dificuldade de descartar ou se desfazer de pertences, como no transtorno de acumulação; arrancar os cabelos, como na tricotilomania [transtorno de arrancar o cabelo]; beliscar a pele, como no transtorno de escoriação [skin-picking]; estereotipias, como no transtorno de movimento estereotipado; comportamento alimentar ritualizado, como nos transtornos alimentares; preocupação com substâncias ou jogo, como nos transtornos relacionados a substâncias e transtornos aditivos; preocupação com ter uma doença, como no transtorno de ansiedade de doença; impulsos ou fantasias sexuais, como nos transtornos parafílicos; impulsos, como nos transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta; ruminações de culpa, como no transtorno depressivo maior; inserção de pensamento ou preocupações delirantes, como nos transtornos do espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos; ou padrões repetitivos de comportamento, como no transtorno do espectro autista).

Especificadores

“Muitos indivíduos com TOC têm crenças disfuncionais. Essas crenças podem incluir senso aumentado de responsabilidade e tendência a superestimar a ameaça; perfeccionismo e intolerância à incerteza; e importância excessiva dos pensamentos (p. ex., acreditar que ter um pensamento proibido é tão ruim quanto executá-lo) e necessidade de controlá-los. Os indivíduos com TOC variam no grau de insight que têm quanto à exatidão das crenças subjacentes aos seus sintomas obsessivo-compulsivos. Muitos têm insight bom ou razoável (p. ex., o indivíduo acredita que a casa definitivamente não irá, provavelmente não irá ou pode ou não incendiar se o fogão não for verificado 30 vezes). Alguns têm insight pobre (p. ex., o indivíduo acredita que a casa provavelmente irá incendiar se o fogão não for verificado 30 vezes), e poucos (menos de 4%) têm insight ausente/crenças delirantes (p. ex., o indivíduo está convencido de que a casa irá incendiar se o fogão não for verificado 30 vezes). O insight pode variar em um indivíduo durante o curso da doença. O insight mais pobre foi vinculado a pior evolução no longo prazo. Até 30% dos indivíduos com TOC têm um transtorno de tique ao longo da vida. Isso é mais comum no sexo masculino com início do TOC na infância. Esses indivíduos tendem a diferir daqueles sem história de transtornos de tique nos temas dos seus sintomas obsessivo-compulsivos, comorbidade, curso e padrão de transmissão familiar.” (DSM V pág 238)

Características Diagnósticas

O sintoma característico do TOC é a presença de obsessões e compulsões (Critério A).

Obsessões são pensamentos repetitivos e persistentes (p. ex., de contaminação), imagens (p. ex., de cenas violentas ou horrorizantes) ou impulsos (p. ex., apunhalar alguém).  É importante observar que as obsessões não são prazerosas ou experimentadas como voluntárias: são intrusivas e indesejadas e causam acentuado sofrimento ou ansiedade na maioria das pessoas. O indivíduo tenta ignorá--las ou suprimi-las (p. ex., evitando os desencadeantes ou usando a supressão do pensamento) ou neutralizá-las com outro pensamento ou ação (p. ex., executando uma compulsão).

Compulsões (ou rituais) são comportamentos repetitivos (p. ex., lavar, verificar) ou atos mentais (p. ex., contar,repetir palavras em silêncio) que o indivíduo se sente compelido a executar em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras que devem ser aplicadas rigidamente. A maioria das pessoas com TOC tem obsessões e compulsões. As compulsões são geralmente executadas em resposta a uma obsessão (p. ex., pensamentos de contaminação levando a rituais de lavagem ou pensamentos de que alguma coisa está incorreta levando à repetição de rituais até parecer “direita” [just right)]. O objetivo é reduzir o sofrimento desencadeado pelas obsessões ou evitar um evento temido (p. ex., ficar doente). Contudo, essas compulsões não estão conectadas de forma realista ao evento temido (p. ex., organizar itens simetricamente para evitar danos a uma pessoa amada) ou são claramente excessivas (p. ex., tomar banho durante horas todos os dias). As compulsões não são executadas por prazer, embora alguns indivíduos experimentem alívio da ansiedade ou sofrimento.

O Critério B enfatiza que as obsessões e compulsões devem tomar tempo (p. ex., mais de uma hora por dia) ou causar sofrimento ou prejuízo clinicamente significativos para justificar um diagnóstico de TOC. Esse critério ajuda a distinguir o transtorno dos pensamentos intrusivos ocasionais ou comportamentos repetitivos que são comuns na população em geral (p. ex., verificar duas vezes se a porta está trancada). A frequência e a gravidade das obsessões e compulsões variam entre os indivíduos com TOC (p. ex., alguns têm sintomas leves a moderados, passando 1 a 3 horas por dia com obsessões ou executando compulsões, enquanto outros têm pensamentos intrusivos ou compulsões quase constantes que podem ser incapacitantes).

Características Associadas que Apoiam o Diagnóstico

O conteúdo específico das obsessões e compulsões varia entre os indivíduos. Entretanto, certos temas, ou dimensões, são comuns, incluindo os de limpeza (obsessões por contaminação e compulsões por limpeza); simetria (obsessões por simetria e compulsões por repetição, organização e contagem); pensamentos proibidos ou tabus (p. ex., obsessões agressivas, sexuais ou religiosas e compulsões relacionadas); e danos (p. ex., medo de causar danos a si mesmo ou a outros e compulsões de verificação). Algumas pessoas também têm dificuldades em descartar e acumulam objetos como uma consequência de obsessões e compulsões típicas, como o medo de causar danos a outras pessoas. Esses temas ocorrem em diferentes culturas, são relativamente consistentes ao longo do tempo em adultos com o transtorno e podem estar associados a diferentes substratos neurais. É importante observar que os indivíduos com frequência têm sintomas em mais de uma dimensão. As pessoas com TOC experimentam uma gama de respostas afetivas quando confrontadas com situações que desencadeiam obsessões e compulsões. Por exemplo, muitos indivíduos experimentam ansiedade acentuada que pode incluir ataques de pânico recorrentes. Outros relatam fortes sentimentos de nojo. Enquanto executam as compulsões, algumas pessoas relatam uma angustiante sensação de “incompletude” ou inquietação até que as coisas pareçam ou soem “direitas” (just right). É comum que indivíduos com o transtorno evitem pessoas, lugares e coisas que desencadeiam obsessões e compulsões. Por exemplo, indivíduos com preocupações com contaminação podem evitar situações públicas (p. ex., restaurantes, banheiros públicos) para reduzir a exposição aos contaminantes temidos; pessoas com pensamentos intrusivos sobre causar danos podem evitar as interações sociais.


TRANSTORNO DA PERSONALIDADE OBSESSIVO-COMPULSIVA OU ANANCÁSTICA  301.4 (F 60.5)

Critérios de Diagnóstico

Um padrão difuso de preocupação com ordem, perfeccionismo e controle mental e interpessoal à custa de flexibilidade, abertura e eficiência que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos, conforme indicado por quatro (ou mais) dos seguintes:
1. É tão preocupado com detalhes, regras, listas, ordem, organização ou horários a ponto de o objetivo principal da atividade ser perdido.
2. Demonstra perfeccionismo que interfere na conclusão de tarefas (p. ex., não consegue completar um projeto porque seus padrões próprios demasiadamente rígidos não são atingidos).
3. É excessivamente dedicado ao trabalho e à produtividade em detrimento de atividades de lazer e amizades (não explicado por uma óbvia necessidade financeira).
4. É excessivamente consciencioso, escrupuloso e inflexível quanto a assuntos de moralidade, ética ou valores (não explicado por identificação cultural ou religiosa).
5. É incapaz de descartar objetos usados ou sem valor mesmo quando não têm valor sentimental.
6. Reluta em delegar tarefas ou trabalhar com outras pessoas a menos que elas se submetam à sua forma exata de fazer as coisas.
7. Adota um estilo miserável de gastos em relação a si e a outros; o dinheiro é visto como algo a ser acumulado para futuras catástrofes.
8. Exibe rigidez e teimosia.  (DSM V pág 678)

Características Diagnósticas

A característica essencial do transtorno da personalidade obsessivo-compulsiva é uma preocupação com ordem, perfeccionismo e controle mental e interpessoal à custa de flexibilidade, abertura e eficiência. Esse padrão surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos.
Indivíduos com transtorno da personalidade obsessivo-compulsiva tentam manter uma sensação de controle por meio de atenção cuidadosa a regras, pequenos detalhes, procedimentos, listas, cronogramas ou forma a ponto de o objetivo principal da atividade ser perdido (Critério 1). São excessivamente cuidadosos e propensos à repetição, prestando extraordinária atenção aos detalhes e conferindo repetidas vezes na busca por possíveis erros. Esquecem o fato de que outras pessoas podem se incomodar muito com os atrasos e as inconveniências que resultam desse comportamento. Por exemplo, quando esses indivíduos esquecem onde colocaram uma lista de coisas a fazer, gastam tempo demais procurando a lista em vez de gastar alguns instantes refazendo-a de memória e passando à execução das tarefas. O tempo é mal alocado, e as tarefas mais importantes são deixadas por último. O perfeccionismo e os padrões elevados de desempenho autoimpostos causam disfunção e sofrimento significativo a esses indivíduos. Podem ficar de tal forma envolvidos em tornar cada detalhe de um projeto absolutamente perfeito que este jamais é concluído (Critério 2). Por exemplo, a conclusão de um relatório escrito é retardada por várias reescritas que tomam tempo, para tudo ficar aquém da “perfeição”. Prazos não são atendidos, e aspectos da vida do indivíduo que não são o foco atual da atividade podem desorganizar-se.

Indivíduos com esse transtorno demonstram dedicação excessiva ao trabalho e à produtividade, a ponto de excluir atividades de lazer e amizades (Critério 3). Esse comportamento não é explicado por necessidade financeira. Com frequência sentem que não têm tempo para tirar uma tarde ou um fim de semana de folga para viajar ou apenas relaxar. Podem ficar postergando atividades agradáveis, como as férias, de modo que elas podem jamais ocorrer. Quando realmente dedicam algum tempo para lazer ou férias, sentem-se bastante desconfortáveis, a não ser que tenham consigo algum tipo de trabalho de modo a não “desperdiçarem tempo”. Pode haver muita concentração em tarefas domiciliares (p. ex., limpeza excessiva e repetida a ponto de “poder comer direto do chão”). Quando ficam algum tempo com os amigos, é provável que seja em algum tipo de atividade formalmente organizada (p. ex., esportes). Passatempos e atividades de recreação são levadas como tarefas sérias que exigem organização criteriosa e trabalho duro para serem dominadas. A ênfase recai sobre o desempenho perfeito. Esses indivíduos transformam o jogo e brincadeiras em tarefas estruturadas (p. ex., corrigindo um bebê que não põe os círculos em um cilindro de madeira na ordem correta; dizendo a uma criança para andar de triciclo em linha reta; transformando um esporte qualquer em uma “lição” severa).

Indivíduos com transtorno da personalidade obsessivo-compulsiva podem ser excessivamente conscienciosos, escrupulosos e inflexíveis acerca de assuntos de moralidade, ética ou valores (Critério 4). Podem obrigar-se e obrigar os outros a seguir princípios morais rígidos e padrões muito austeros de desempenho. Podem, ainda, ser críticos impiedosos em relação aos próprios erros. Indivíduos com esse transtorno respeitam autoridade e regras com extrema consideração e insistem em obedecer às regras de forma bastante literal e inflexível. Por exemplo, o indivíduo não irá emprestar uma moeda a um amigo que precisa dela para um telefonema porque ele mesmo não é “do tipo que pede emprestado ou empresta” ou porque seria ruim para o caráter da pessoa.

Essas características não devem ser explicadas por identificação cultural ou religiosa do indivíduo. Indivíduos com esse transtorno podem ser incapazes de descartar objetos usados ou sem valor, mesmo na ausência de valor sentimental (Critério 5). Frequentemente admitem ser acumuladores. Consideram o descarte de objetos um desperdício, pois “nunca se sabe quando poderá precisar de alguma coisa” e ficam incomodados se alguém tenta se livrar de coisas que eles guardaram. Seus cônjuges ou parceiros podem se queixar da quantidade de espaço ocupado por peças e revistas antigas, aparelhos estragados e assim por diante. Essas pessoas relutam em delegar tarefas ou em trabalhar em conjunto (Critério 6). De maneira teimosa e injustificada, insistem que tudo precisa ser feito a seu modo e que as pessoas têm de se conformar com sua maneira de fazer as coisas. Com frequência dão instruções bastante detalhadas sobre como tudo deve ser feito (p. ex., só há uma forma de cortar a grama, lavar os pratos, construir uma casa para o cachorro) e ficam surpresos e irritados quando outros sugerem alternativas criativas. Em outras ocasiões, podem rejeitar ofertas de ajuda mesmo quando atrasados no cronograma, pois consideram que ninguém pode fazer as coisas tão bem quanto eles mesmos.

Indivíduos com esse transtorno podem ser miseráveis e mesquinhos e manter um padrão de vida bastante inferior ao que podem sustentar, acreditando que os gastos devem ser rigidamente controlados para garantir sustento em catástrofes futuras (Critério 7). O transtorno da personalidade obsessivo-compulsiva caracteriza-se por rigidez e teimosia (Critério 8). Indivíduos com o transtorno estão tão preocupados em realizar as tarefas da única maneira “certa” que enfrentam dificuldades para concordar com as ideias de qualquer outra pessoa. Planejam o futuro nos mínimos detalhes e não se dispõem a avaliar possíveis mudanças. Completamente envolvidos pela própria perspectiva, têm dificuldade de reconhecer os pontos de vista dos outros. Amigos e colegas podem se frustrar por essa rigidez constante. Mesmo quando reconhecem que ceder pode ser interessante para eles mesmos, podem de forma teimosa recusar-se a isso alegando ser este “o princípio da coisa”.