quarta-feira, 29 de junho de 2011

Esquizofrenia Residual



Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna



A Esquizofrenia Residual (F20.5) pode ser definida como o estágio crônico da esquizofrenia no qual houve a regressão de um quadro inicial para uma espécie de quadro tardio onde ocorrem predominantemente sintomas negativos de longa duração, mas não necessariamente irreversíveis. Na esquizofrenia residual houve um ou mais episódios de esquizofrenia, mas na maior parte do tempo o indivíduo não apresenta sintomas psicóticos positivos como delírios, alucinações, perturbações, comportamentos bizarros e agitações psicomotoras.

De acordo com o CID 10, para o diagnóstico da Esquizofrenia Negativa, é necessário que no passado, tenha havido, pelo menos um episódio psicótico bem definido, satisfazendo os critérios gerais para diagnóstico da Esquizofrenia. Também é necessário um período de pelo menos um ano durante o qual a intensidade e frequência dos sintomas floridos (delírios e alucinações) foram mínimos ou substancialmente reduzidos e a síndrome esquizofrênica negativa esteve presente. É necessário também que seja constatada a ausência de demência ou outro transtorno mental orgânico e de depressão crônica ou institucionalismo suficientes para explicar os sintomas negativos.

Os sintomas negativos da psicose são verificamos mais facilmente como o embotamento afetivo, retardo psicomotor, pobreza da quantidade ou do conteúdo do discurso, hipoatividade, avolição, comunicação não verbal pobre (expressão facial, olhar, modulação de voz e postura) baixo desemprenho social e negligência com cuidados pessoais. Pode ocorrer também a presença de sintomas positivos atenuados como discurso levemente desorganizado, crenças infundadas e comportamento excêntrico.

Nesta fase residual pode ocorrer ainda isolamento social, o comportamento excêntrico, emoções pouco apropriadas e pensamentos ilógicos.  Pode ocorrer a remissão completa da esquizofrenia tipo residual da mesma forma que ela pode permanecer por muitos anos. Entre os critérios para Diagnósticos da Esquizofrenia Residual (F20.5) são: ausência de delírios e alucinações, discurso desorganizado e   comportamento amplamente desorganizado ou catatônico. O Esquizofrenia Residual inclui: Esquizofrenia indiferenciada crônica, Estado esquizofrênico residual e Restzustand.

No DSM IV a Esquizofrenia residual recebe o código 295.6, os critérios para diagnóstico são basicamente os mesmos do CID 10. No entanto o DSM IV aponta que a Esquizofrenia do tipo Residual pode ser uma transição entre um episódio manifesto e a remissão completa dos sintomas, conforme citações em inglês no rodapé deste texto.

Apesar da presença no CID 10 e no DSM –IV o DSM-5 não traz mais a Esquizofrenia Residual. O manual abandonou a divisão da esquizofrenia em subtipos: paranóide, desorganizada, catatônica indiferenciada e residual, alegando que os subtipos apresentavam pouca validade e não refletiam diferenças quanto ao curso da doença ou resposta ao tratamento. No geral, as mudanças no DSM-5 desencadearam polêmicas e dividiram a opinião de especialistas, recebendo críticas de profissionais renomados como do psiquiatra americano Allen Frances que coordenou a elaboração do DSM-IV.

Mesmo ausente na última versão do DSM , segue aqui este texto que é resultado de pesquisas que venho fazendo a respeito deste transtorno nos últimos 4 anos, recebendo inclusive relatos de pessoas que cuidam de pacientes com o transtorno e relatos esses que corroboram com as diretrizes diagnósticas no CID 10 e DSM IV.


NOTAS:

Embotamento afetivo é a perda da capacidade de demonstrar emoções e sentimentos. O individuo não manifesta expressão de alegria, tristeza, raiva ou dor. O embotamento afetivo é comum em alguns casos de esquizofrenia mas também pode ocorrer em depressões muito grave.
Avolição é perda de interesse por fazer coisas
Sintomas positivos são aqueles acrescentados pela doença.
 Sintomas negativos são as incapacidades que a doença impõe ao indivíduo.




 Citações

“The Residual Type of Schizophrenia should be used when there has been at least one episode of Schizophrenia, but the current clinical picture is without prominent positive psychotic symptoms (e.g., delusions, hallucinations, disorganized speech or behavior).  There is continuing evidence of the disturbance as indicated by the presence of negative symptoms (e.g., flat affect, poverty of speech, or avolition) or two or more attenuated positive symptoms (e.g., eccentric behavior, mildly disorganized speech, or odd beliefs). If delusions or hallucinations are present, they are not prominent and are not accompanied by strong affect. The course of the Residual Type may be time limited and represent a transition between a full-blown episode and complete remission.  However, it may also be continuously present for many years, with or without acute exacerbations.” 
(DSM IV, Diagnostic And Statistical Manual Of Mental Disorders pág 289)


"A type of Schizophrenia in which the following criteria are met: A. Absence of prominent delusions, hallucinations, disorganized speech, and grossly disorganized or catatonic behavior. B. There is continuing evidence of the disturbance, as indicated by the presence of negative symptoms or two or more symptoms listed in Criterion A for Schizophrenia, present in an attenuated form (e.g., odd beliefs, unusual perceptual experiences)." 
(DSM IV, Diagnostic And Statistical Manual Of Mental Disorders pág 290)


Como Referir:  ROCHA, Raquel. Esquizofrenia Residual. Disponível em: <http://soliloquiospsicanaliticos.blogspot.com > Acesso em: __/__/____  





Prints




DSV IV



Livro: Psiquiatria Básica. Artmed 2007

CID 10
Acesso no endereço: https://books.google.com.br/books?id=PQhs3Rx4b-8C&printsec=frontcover&hl=pt-PT#v=onepage&q&f=false


Transtornos Mentais Por Leonardo Baldaçara





domingo, 19 de junho de 2011

Se divertir nas tentativas



Tento ler um livro mas o pensamento voa, não consigo me concentrar, estou cheia de questionamentos. Sinto necessidade de escrever sobre o sentido da vida e mais um monte de questões filosóficas que nos atormentam. Minha filha de 8 anos chega toda eufórica: “Mâe! Tem sol! Posso tomar banho de piscina?”
Eu respondo que tem sol mas estamos no inverno e que a água está gelada. Ela insiste. Eu deixo. Logo depois ouço os gritinhos dela. Olho da varanda. Ela ta na piscina, na escada da piscina com a água quase na cintura. A água está gelada demais e ela não consegue mergulhar.
Ela sempre faz isso, aí fica com a parte do corpo que consegue na água e joga mais água para cima brincando, molha descaradamente os cabelos, dá gritinhos como se os gritos fossem encorajá-la a pular.
Ela nunca pula quando a água esta fria. Mas ela sempre tenta. Acho até que ela se diverte nas tentativas.
Penso sobre “Se divertir nas tentativas”. Começar coisas sem se preocupar em ir até o final, ir até onde puder, e mesmo assim se divertir muito.
Desço e tiro uma foto. Já não preciso escrever sobre o sentido da vida.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

SUICÍDIO

Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna





O comportamento suicida é conflitante com o instinto de sobrevivência inerente ao ser humano por isso é necessário analisar o desejo de viver contra o de morrer. Apesar da ambivalência, os dados mostram um alarmante aumento do número de suicídio em todo o mundo.
Os grupos de risco são adolescentes e adultos jovens, idosos, imigrantes e indígenas. O trabalho ressalta uma diferença em relação aos gêneros no que diz respeito ao número de tentativas e ao ato levado até o fim, agravantes e atenuantes em ambos. A depressão, o comportamento antissocial, transtornos de ansiedade, problemas físicos, antecedentes familiares e privações econômicas são alguns dos fatores de risco. Além dos fatores de risco também ressalta-se algumas medidas de proteção como ter uma boa relação familiar, ter religião e participar de atividades grupais.
Pesquisas apontam que a maioria das vítimas de suicídio procuraram os serviços de atenção básica antes do ato, assim, discorrendo sobre os fatores comportamentos, fatores de risco e proteção buscamos enumerar possíveis intervenções dos profissionais da atenção primária no sentido de prevenir as tentativas e consequentemente as mortes.


         O que é o Suicídio

O suicídio é definido como ato intencional de tirar a própria vida, iniciado e levado até o fim por uma pessoa com conhecimento e propósito de um resultado final. É uma ação consciente de autodestruição. O termo “suicídio” foi utilizado pela primeira vez em 1.737 por René Louiche Desfontaines. A palavra vem do latim “sui” (si mesmo) e “caederes” (matar).  Pela Organização Mundial de Saúde, OMS, o ato é classificado como uma violência auto infligida, onde o indivíduo é sujeito e objeto desse fenômeno complexo que abarca inúmeras variáveis e remetem o indivíduo a ideia de violência máxima, o assassinato de si próprio.
Segundo dados da OMS, uma pessoa se suicida a cada 40 segundos no mundo. O índice de mortalidade por suicídio aumentou 60% nos últimos 45 anos e vem migrando em participação percentual do grupo dos mais idosos para o de indivíduos mais jovens (15 a 45 anos).
O problema é subestimado, pois estima-se que as taxas de tentativas de suicídio são de dez a vinte vezes maiores que os suicídios consumados. Os dados de suicídios consumados podem ser ainda maior, pois em alguns casos, como os de mortes por afogamento, queda e overdose, é impossível determinar se a causa da morte foi ou não intencional. Não sabendo se o ato foi intencional ou não normalmente se atribui a causa da morte ao fato acidental até mesmo pelo desconforto e dor que envolve a questão do suicídio.


Homens e Mulheres

O número de suicídio é muito maior entre homens que em mulheres. Por outro lado, os dados que se referem à tentativas de suicídio revelam que as mulheres tentam o ato muito mais que os homens.
A diferença verificada em relação a letalidade pode ter como causa os métodos utilizados pois as mulheres geralmente usam métodos menos invasivos como envenenamento para não perderem a beleza na hora da morte. Já os homens usam métodos mais violentos como armas de fogo, enforcamentos ou explosivos para demonstrar virilidade.
As mulheres possuem ao mesmo tempo um agravante e um atenuante para o comportamento suicida em relação aos homens, pois enquanto as mulheres possuem uma tendência maior a depressão (maior fator de risco identificado) ela também possui mais facilidade em conversar sobre o problema com outras pessoas e procurar ajuda.


Grupos de Risco

Nos últimos quinze anos cresceram as tentativas de suicídio e o suicídio na faixa etária de 15 a 34 anos, considerados adolescentes e adultos jovens. Nesta faixa o suicídio constitui a terceira causa morte, perdendo apenas para os homicídios e acidentes. Felizmente, o suicídio entre crianças menores de 15 anos é incomum, sendo muito raro em crianças menores de 12 anos. No mundo inteiro o suicídio está entre as cinco maiores causas de morte entre jovens de 15 a 19 anos. Estudos mostram que metade dos estudantes do segundo grau já tiveram pensamentos suicidas.
Os idosos constituem um grupo risco devido a grande incidência de depressão nesta faixa etária. O problema é agravado por fatores como abandono familiar, perdas materiais, de status, vigor físico, solidão, doenças crônicas e a própria proximidade com a morte.
Existe um risco aumentado de comportamento suicida  nas populações indígenas e também entre os imigrantes. Isso pode ocorrer devido ao isolamento por dificuldades linguísticas e ainda problemas de adaptação cultural. Refugiados de guerra, que sofreram tortura ou ferimentos também constituem grupo de risco. Tantos entre os indígenas quanto entre os imigrantes pode haver problemas de integração na sociedade, decorrentes de conflito de valores.


Fatores que podem levar ao Suicídio

Os fatores de risco para o comportamento suicida são complexos e diversos. É comum o indivíduo apresentar mais de um deles.
O transtorno mental está presente em 90% das pessoas que cometem suicídio. A Depressão é o mais grave de todos. Três em cada quatro pessoas que cometeram suicídio apresentaram um ou mais sintomas depressivos e muitas delas já estava com o transtorno depressivo já estabelecido há algum tempo. Os sintomas mais comuns da depressão são: dor de cabeça, dor de estômago, dor nas pernas e no peito. A depressão aliada ao comportamento antissocial são os antecedentes mais comuns em adolescentes suicidas. Importante ressaltar ainda a diferença dos sintomas depressivos entre meninos e meninas. As meninas quando depressivas se tornam quietas, e os meninos agressivos. Ambos se isolam.
Além da depressão há uma importante relação entre transtornos de ansiedades e tentativas de suicídio. Tanto as pessoas que sofrem de transtornos de ansiedade quanto os indivíduos que fazem uso abusivo de álcool ou drogas tendem a ser mais vulnerável ao comportamento suicida.
Não só os problemas mentais, mas também os problemas físicos que provocam invalidez, vergonha ou dor crônica podem levar levam o indivíduo à vulnerabilidade. Igualmente constitui um fator de risco os antecedentes familiares: indivíduos que possuem membros na família que cometeram ou tentaram cometer suicídio possuem maior probabilidade repetir o ato.
Em relação ao fator família, não só as tentativas de outros membros constituem um fator de risco, mas também a própria relação familiar ruim, onde permanece a falta de diálogo, de afeto, de tempo, autoridade excessiva dos pais ou cuidadores, agressões verbais, desrespeito, negligência, rigidez e rejeição. Também, constituem fatores de risco familiar pais ou cuidadores com psicopatologias, ou que fazem uso abusivo de álcool ou drogas bem como o divorcio ou morte dos cuidadores. A violência sexual ou física durante o início da infância quando não superada também se constitui um grave fator que pode levar ao suicídio. Os problemas familiares é um risco ainda maior para crianças e adolescentes visto que as relações familiares são de estrema importância no desenvolvimento do indivíduo.
A inconformidade com o gênero também pode se tornar um fator de risco, o homem que não se aceita homem e a mulher que não se aceita mulher. Esta inconformidade aliada a falta de coragem de lidar com o homossexualismo agrava o problema. Mesmo quando assumida sua preferência sexual o indivíduo ainda precisa lidar com os valores de sua cultura e os seus próprios, aliado ao preconceito dos pais, familiares, trabalho, escola e qualquer outros grupos sociais em que estão inseridos. Ao sentir-se rejeitados eles podem se isolar e chegar ao comportamento suicida.
Privações econômicas e socioculturais também constituem um fator de risco. Estudiosos afirmam que a pobreza, responsável pelas precárias condições de sobrevivência, o estresse econômico e instabilidade familiar geram ansiedade e comprometimento emocional, fatores que predispõe ao suicídio, que por sua vez representa um indicador de pressão da sociedade sobre esses grupos mais vulneráveis. (MENEGUEL, 2004)
Além de uma estrutura familiar ruim outros fatores podem levar ao suicídio: desemprego,  padrão de possibilidade de consumo ao seu redor maior que o do indivíduo, rejeição nos meios de convivência, baixa autoestima, desesperança e solidão.
Entre as pessoas que tentam ou cometem suicídio encontramos os seguintes traços de personalidade: humor instável, raiva agressividade, impulsividade, ansiedade, perfeccionismo. São pessoas de comportamento antissocial manipulativo, padrões rígidos no enfrentamento de problemas, que demonstram superioridade quando na verdade se sentem inferiores, vivem num mundo fantasioso e possuem baixa tolerância a frustrações.


Fatores de Proteção

Ressaltando a importância da família precisamos lembrar que é nela que vivemos as primeiras e mais marcantes experiências de nosso desenvolvimento psicossocial. Ter bons relacionamentos com os familiares, receber afeto, apoio e atenção dos pais cuidadores é um passo importante na constituição de um indivíduo seguro e feliz.
Além do bom relacionamento com os pais e familiares em geral também constituem fatores de proteção tem boas relações sociais, autoconfiança, capacidade de procurar conselho e ajuda nas dificuldades, estar aberto a ouvir pessoas mais experientes e a novos conhecimentos.
O isolamento é um grave fator de risco, então morar com outras pessoas poder importante para o indivíduo com esta tendência. Ter filhos e companheiro também constituem fatores de proteção. A nível cultural é importante que o indivíduo tenha profissão, religião, pratique esportes, tenha bom relacionamento com colegas e trabalho e escola.



REFERENCIAS

ABREU, LIMA, KOHLRAUSCH E SOARES Comportamento Suicida: fatores de riscos e intervenções preventivas.  http://www.fen.ufg.br/revista/v12/n1/pdf/v12n1a24.pdf
BOTEGA, N. J. Prática psiquiátrica no hospital geral: interconsulta e emergência. 2. ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2006
 MENEGUEL SN, Victora CG, Faria NMX, Carvalho LA, Falk JW. Características epidemiológicas do suicídio no Rio Grande do Sul. Rev. Saude Publica 2004; 38(Supl. 6):804-810.
Prevenção do Suicídio: Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf
Instituto Univérsico de Pesquisa e Educação: http://www.iupe.org.br Acesso em 25 de setembro de 2010.
Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da saúde em atenção primária http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_phc_port.pdf
VIEIRA: "Amor não correspondido": discursos de adolescentes que tentaram suicídio.

Como Referir:  ROCHA, Raquel. Suicídio, Fatores e Risco e de Proteção. Disponível em: < http://soliloquiospsicanaliticos.blogspot.com > Acesso em: __/__/____