domingo, 1 de maio de 2011

GARAPA


No meio de tanta teoria psicanalítica peço licença para falar de cinema. Como os solilóquios são meus, eu mesma me autorizo.

Ontem finalmente assisti o documentário Garapa, de José Padilha que retrata a miséria de algumas famílias do interior do Ceará. O documentário é chocante. Não que a gente não saiba que ainda tem gente passando fome por aí, mas uma coisa é saber, outra é ver crianças extremamente magras, com as costelas aparecendo, pedindo comida, comendo no chão como se fossem animais, disputando a comida com as moscas. “Garapa” o nome da mistura de água quente com açúcar colocada na mamadeira e dada as crianças quando não se tem outra coisa para dar.

Garapa dá um tapa na cara de todo mundo que assiste, dizendo “Isto é real, Veja.”.

O documentário traz a tona vários problemas sociais como a miséria, a falta de planejamento familiar, o alcoolismo, o desemprego. O pai que deixa os filhos com fome e vai beber cerveja. A mãe que não tem como alimentar seus filhos mas continua engravidando. Pessoalmente não gosto da referência ao bolsa família. Mesmo perplexa com as cenas de fome, não acredito que o bolsa família seja a solução. É apenas um paliativo, um cala-boca, um “não morra tão rápido”. A solução concreta, mesmo que demorada, das nossas mazelas sociais está na educação.  (mas mudemos de assunto)

Muito mais agradável que falar de questões sociais e políticas, é falar da cinematografia. Padilha filmou a maior parte do documentário com câmera fixa. As imagens em preto e branco, mostradas as vezes em plano geral, as vezes me plano detalhe, o tempo todo ordena “Não tire os olhos de mim”. Assistir Garapa me lembrou das fotografias do livro Terra, de Sebastião Salgado. Quase ouvi a voz de Saramago narrando aquela realidade. Mas o filme não tem narração, não tem trilha sonora, só tem a realidade nua e crua mostrada com arte.

Gosto das intervenções de Padilha, das perguntas discretas feitas por trás das câmeras, da forma como ele se intromete e se retira das cenas, gosto até da interferência que ele faz em uma situação. Um diretor não é uma lente.

Quando assisti o primeiro Tropa de Elite, filmado com aquela câmera nervosa, em movimento, participando da ação, pensei “Esse filme parece documentário”. Dessa vez, Garapa com sua imagem fixa, sua pouca profundidade de campo, seu ritmo lento, pensei “Isso parece filme..”. Padilha surpreende, surpreende com sua temática e com sua estética.

Só não digo que Garapa é um filme bonito porque a miséria é muito feia..





É possível assistir ao documentário completo no endereço http://www.youtube.com/view_play_list?p=CE990E24E3AA3DFD

5 comentários:

  1. Como diz vc, falar de cinematografia é melhor do que falar de miseria... realmente eu me surpreendo cada dia mais com os docs produzidos no Brasil... as formas narrativas, a subjetividade, o tratamento com a imagem... enfim, é tudo muito bem pensado e cuidado.

    Quanto ao cinema de ficção, acho que temos alguns pontos de renovação... mas os nossos docs, realmente, estão leguas à frente...

    garapa é doce, mas não é mole, nao... rsrs

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  2. Raquel, gostei muito do post,fiquei morrendo de vontade de ver o filme!!!!
    beijoss

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  3. deve ser muito duro mesmo, acho que te entendo. enquanto seres humanos, passam por tudo isso, sem qualquer previsão de melhoria de vida, tanta gente por aí "metendo a mão" nas verbas da merenda escolar, da saude e da educação basica. sugiro ate, que a pena a ser aplicada a esses vagabundos, salafrarios dessas quadrilhas, quando pegos, não sejam presos, mas sim, destinados a ter uma vida similar a desses pobres seres humanos. é revoltante!

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  4. Baixar o Documentário - Garapa - A questão da FOME no Brasil - http://mcaf.ee/i9hot

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