terça-feira, 30 de agosto de 2011

"... Assim tudo acaba em silêncio e poesia."


"Passo agora a responder à sua pergunta sobre a gênese dos meus heterônimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente. Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterônimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastênico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenômenos da abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registro de seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenômenos- felizmente para mim e para os outros- mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contato com os outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher- na mulher os fenômenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas- cada poema de Álvaro de Campos( o mais histericamente histérico de mim ) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem- e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia..."

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O Solista- Filme



“O Solista” (2009) conta a história de Nathaniel Ayers, um esquizofrênico que mora nas ruas de Los Angeles e toca um violino de duas cordas aos pés de uma estátua de Ludwig Van Beethoven. O jornalista Steve Lopez, atraído pelo som do violino se aproxima. Entre diálogos e delírios Nathaniel conta que estudou na conceituada escola de arte, Julliard. O jornalista imediatamente se interessa e começa a pesquisar sua história.

Steve Lopez descobre que Nathaniel era um aluno genial, dedicando-se música em tempo integral. Quando jovem chegou a fazer parte de uma grande orquestra. No entanto, é justamente neste época de sua vida que ele começa a ter alucinações. Essas alucinações se caracterizam como vozes que lhe atormentam todo o tempo, sobretudo quando o músico está ensaiando, ao ponto de ele largar tudo e ir morar nas ruas.

O jornalista publica a história de Nathaniel, em sua coluna sobre o cotidiano e os personagens da cidade de Los Angeles, e uma leitora comovida acaba enviando um violoncelo pro jornal para ser entregue ao incrível músico morador de rua. A entrega do instrumento a Nathaniel constitui uma das cenas da cenas mais bonitas do filme. Num túnel escuro e barulhento, o músico de rua toca Beethoven com delicadeza e entrega total enquanto o jornalista Lopez assiste agachado ao chão. O movimento de câmera lindíssimo, a câmera sai da cena subindo, saindo do túnel para mostrar o caos dos viadutos emaranhados e finalizar num vôo panorâmico de pombos que parecem aplaudir o concerto.

Do diretor inglês Joe Wright (Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação) o filme é baseado em uma história real. Como psicanalista gosto do filme por causa da aula sobre a esquizofrenia em todos os seus aspectos. Como comunicóloga, gosto das reflexões éticas a respeito de um jornalismo que deixa de existir. Como expectadora, penso que os personagens poderiam ser mais explorados em toda a sua profundidade, principalmente pelos atores que os interpretam: Robert Downey Jr. e Jamie Foxx. No fim das contas é um filme que vale a pena assistir, por todos os motivos citados, pela fotografia belíssima e claro, pela trilha sonora.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Dr. House



Há anos venho alardeando aos quatro cantos o quanto gosto da série Dr. House. As vezes com uma ressalva: gosto da série e não de House. Esse é um daqueles personagens densos demais pra gente saber se ama ou odeia, ele é arrogante, sarcástico, imprevisível, infantil mas sempre brilhante.
No episódio 22 da sexta temporada descobriu-se um House extremamente humano. O melhor episódio de todos os tempos, com ele quebrando pia, arracando espelhos e dividido entre a hidrocodona e Cuddy. Esperei ansiosa pela sétima temporada, imaginando uma temporada romântica, House e Cuddy em cenas calientes, brigando e se amando nos quartos vazios do hospital (quase um Grey's Anatomy)
Achei que ele fosse mudar, mas House não tem jeito. Ele até que tentou, mas as vezes tentar não é suficiente.
No episódio 15 da sétima temporada eu finalmente descobri o porque gosto tanto de House mesmo odiando ele. As razões são puramente pessoais, inexplicáveis e complexas, mas segue aqui uma transcrição deste episódio, um dos mais profundos e incríveis que já assisti.
Cuddy descobre um tumor, durante o período em que ela faz uma série de exames House some até que finalmente aparece pra ficar ao lado dela durante a cirurgia. Quando recuperada Cuddy descobre que House precisou tomar hidrocodona pra ficar com ela.
House tenta explicar, disse que tomou porque sentiu medo de perdê-la e é nesse momento que Cuddy consegue dar a melhor explicação sobre House de toda a série.
“Você toma pra não sentir dor. Tudo o que faz é pra não sentir dor. As drogas, o sarcasmo, manter distância para que ninguém o magoe” Ela finaliza: “Quem ama sente dor.”
House tenta argumentar, pede para ela não deixá-lo.
Ela diz: “Você não estava comigo pra valer.”
Ele: “Eu queria estar.”
Ela: “Isso não basta.”

domingo, 7 de agosto de 2011

SPARTACUS


Todo mundo já ouviu falar de Spartacus, o escravo que se tornou gladiador e liderou uma grande revolução da Roma Antiga, tornando-se uma lenda.

Depois do clássico Spartacus de Stanley Kubrick (1960) e diversos outros filmes inspirados na mesma história, surge a série Spartacus dos produtores Sam Raimi e Joshua Donen. A série é simplesmente incrível! Muitas cenas de batalhas, de sexo numa extravagância de ação, erotismo e sangue jorrando em câmera lenta no mais puro vermelho que já se viu.

A fotografia do filme é impecável, em estilo HQ. As perspectivas também surpreendem como nas cenas em que a câmera está dentro dos helmos dos gladiadores mostrando como eles veem seus oponentes. Os personagens são profundos, humanos e imprevisíveis.

A série mostra alguns personagens diferentes de como os costumamos ver nas adaptações, o que não chega a ser um incômodo, afinal poucos registros existem sobre a verdadeira história de Spartacus. Enquanto os personagens ganham vida própria, a série não hesita em mostrar a sociedade daquela época com todos os seus traços de luxúria, fetiches, orgias e tudo mais.

Em Spartacus você encontra paixão, ódio, vingança, coragem, sensualidade, tudo isso com uma estética lindíssima.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Raiva e Ódio

Sentir raiva as vezes é normal e você pode extravasar esta emoção praticando esportes, desabafando com um amigo, xingando o travesseiro ou na pior dar hipóteses dando um bufete na pessoa que te causou a raiva. Já o ódio é veneno e como todo veneno pode matar.

Diferença de Raiva e Ódio

A raiva é uma emoção. O processo de geração da raiva ocorre quando os neurônios libera uma descarga de adrenalina no sangue, que leva a um aumento da frequência cardíaca, estreita os vasos sanguíneos e consequentemente aumenta a pressão arterial.

A diferença entre raiva e ódio é que a raiva é uma emoção, portanto, passageira. O ódio, no entanto, é um sentimento construído ao longo do tempo. Tanto o ódio quanto amor são considerados afetos primitivos, ambos nascem de representações e desejos conscientes e inconscientes. (Andersen 2010)

Podemos ter raiva de qualquer coisa, por menos importante que seja, já o ódio nós só desenvolvemos para com objetos de real importância para nós. A raiva é uma emoção que implica em estresse mas não mágoa. O ódio é um sentimento que causa mágoa, ressentimento, angústia e frustração.


REFERÊNCIAS

Andersen, Roberto – Módulo: Medicina Psicossomática. CEEP - Centro de Estudos Especializados e Psicanalíticos, 2010. Curso de Formação em Psicanálise, em parceria com a SOBPIEX - Sociedade Brasileira de Psicanálise em Intensão e Extensão.

Ballone GJ -Raiva e Ódio - Emoções Negativas in. PsiqWeb, Internet - disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2006


sábado, 16 de julho de 2011

Receita

"Cantar sempre que for possível
Não ligar pros malvados
Perdoar os pecados...


Saber que nem tudo é perdido
Se manter respeitado

Pra poder ser amado"

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Esquizofrenia Residual



Raquel Rocha
Economista, Comunicóloga, Psicanalista e Especialista em Saúde Mental
Membro da Academia de Letras de Itabuna



A Esquizofrenia Residual (F20.5) pode ser definida como o estágio crônico da esquizofrenia no qual houve a regressão de um quadro inicial para uma espécie de quadro tardio onde ocorrem predominantemente sintomas negativos de longa duração, mas não necessariamente irreversíveis. Na esquizofrenia residual houve um ou mais episódios de esquizofrenia, mas na maior parte do tempo o indivíduo não apresenta sintomas psicóticos positivos como delírios, alucinações, perturbações, comportamentos bizarros e agitações psicomotoras.

De acordo com o CID 10, para o diagnóstico da Esquizofrenia Negativa, é necessário que no passado, tenha havido, pelo menos um episódio psicótico bem definido, satisfazendo os critérios gerais para diagnóstico da Esquizofrenia. Também é necessário um período de pelo menos um ano durante o qual a intensidade e frequência dos sintomas floridos (delírios e alucinações) foram mínimos ou substancialmente reduzidos e a síndrome esquizofrênica negativa esteve presente. É necessário também que seja constatada a ausência de demência ou outro transtorno mental orgânico e de depressão crônica ou institucionalismo suficientes para explicar os sintomas negativos.

Os sintomas negativos da psicose são verificamos mais facilmente como o embotamento afetivo, retardo psicomotor, pobreza da quantidade ou do conteúdo do discurso, hipoatividade, avolição, comunicação não verbal pobre (expressão facial, olhar, modulação de voz e postura) baixo desemprenho social e negligência com cuidados pessoais. Pode ocorrer também a presença de sintomas positivos atenuados como discurso levemente desorganizado, crenças infundadas e comportamento excêntrico.

Nesta fase residual pode ocorrer ainda isolamento social, o comportamento excêntrico, emoções pouco apropriadas e pensamentos ilógicos.  Pode ocorrer a remissão completa da esquizofrenia tipo residual da mesma forma que ela pode permanecer por muitos anos. Entre os critérios para Diagnósticos da Esquizofrenia Residual (F20.5) são: ausência de delírios e alucinações, discurso desorganizado e   comportamento amplamente desorganizado ou catatônico. O Esquizofrenia Residual inclui: Esquizofrenia indiferenciada crônica, Estado esquizofrênico residual e Restzustand.

No DSM IV a Esquizofrenia residual recebe o código 295.6, os critérios para diagnóstico são basicamente os mesmos do CID 10. No entanto o DSM IV aponta que a Esquizofrenia do tipo Residual pode ser uma transição entre um episódio manifesto e a remissão completa dos sintomas, conforme citações em inglês no rodapé deste texto.

Apesar da presença no CID 10 e no DSM –IV o DSM-5 não traz mais a Esquizofrenia Residual. O manual abandonou a divisão da esquizofrenia em subtipos: paranóide, desorganizada, catatônica indiferenciada e residual, alegando que os subtipos apresentavam pouca validade e não refletiam diferenças quanto ao curso da doença ou resposta ao tratamento. No geral, as mudanças no DSM-5 desencadearam polêmicas e dividiram a opinião de especialistas, recebendo críticas de profissionais renomados como do psiquiatra americano Allen Frances que coordenou a elaboração do DSM-IV.

Mesmo ausente na última versão do DSM , segue aqui este texto que é resultado de pesquisas que venho fazendo a respeito deste transtorno nos últimos 4 anos, recebendo inclusive relatos de pessoas que cuidam de pacientes com o transtorno e relatos esses que corroboram com as diretrizes diagnósticas no CID 10 e DSM IV.


NOTAS:

Embotamento afetivo é a perda da capacidade de demonstrar emoções e sentimentos. O individuo não manifesta expressão de alegria, tristeza, raiva ou dor. O embotamento afetivo é comum em alguns casos de esquizofrenia mas também pode ocorrer em depressões muito grave.
Avolição é perda de interesse por fazer coisas
Sintomas positivos são aqueles acrescentados pela doença.
 Sintomas negativos são as incapacidades que a doença impõe ao indivíduo.




 Citações

“The Residual Type of Schizophrenia should be used when there has been at least one episode of Schizophrenia, but the current clinical picture is without prominent positive psychotic symptoms (e.g., delusions, hallucinations, disorganized speech or behavior).  There is continuing evidence of the disturbance as indicated by the presence of negative symptoms (e.g., flat affect, poverty of speech, or avolition) or two or more attenuated positive symptoms (e.g., eccentric behavior, mildly disorganized speech, or odd beliefs). If delusions or hallucinations are present, they are not prominent and are not accompanied by strong affect. The course of the Residual Type may be time limited and represent a transition between a full-blown episode and complete remission.  However, it may also be continuously present for many years, with or without acute exacerbations.” 
(DSM IV, Diagnostic And Statistical Manual Of Mental Disorders pág 289)


"A type of Schizophrenia in which the following criteria are met: A. Absence of prominent delusions, hallucinations, disorganized speech, and grossly disorganized or catatonic behavior. B. There is continuing evidence of the disturbance, as indicated by the presence of negative symptoms or two or more symptoms listed in Criterion A for Schizophrenia, present in an attenuated form (e.g., odd beliefs, unusual perceptual experiences)." 
(DSM IV, Diagnostic And Statistical Manual Of Mental Disorders pág 290)


Como Referir:  ROCHA, Raquel. Esquizofrenia Residual. Disponível em: <http://soliloquiospsicanaliticos.blogspot.com > Acesso em: __/__/____  





Prints




DSV IV



Livro: Psiquiatria Básica. Artmed 2007

CID 10
Acesso no endereço: https://books.google.com.br/books?id=PQhs3Rx4b-8C&printsec=frontcover&hl=pt-PT#v=onepage&q&f=false


Transtornos Mentais Por Leonardo Baldaçara





domingo, 19 de junho de 2011

Se divertir nas tentativas



Tento ler um livro mas o pensamento voa, não consigo me concentrar, estou cheia de questionamentos. Sinto necessidade de escrever sobre o sentido da vida e mais um monte de questões filosóficas que nos atormentam. Minha filha de 8 anos chega toda eufórica: “Mâe! Tem sol! Posso tomar banho de piscina?”
Eu respondo que tem sol mas estamos no inverno e que a água está gelada. Ela insiste. Eu deixo. Logo depois ouço os gritinhos dela. Olho da varanda. Ela ta na piscina, na escada da piscina com a água quase na cintura. A água está gelada demais e ela não consegue mergulhar.
Ela sempre faz isso, aí fica com a parte do corpo que consegue na água e joga mais água para cima brincando, molha descaradamente os cabelos, dá gritinhos como se os gritos fossem encorajá-la a pular.
Ela nunca pula quando a água esta fria. Mas ela sempre tenta. Acho até que ela se diverte nas tentativas.
Penso sobre “Se divertir nas tentativas”. Começar coisas sem se preocupar em ir até o final, ir até onde puder, e mesmo assim se divertir muito.
Desço e tiro uma foto. Já não preciso escrever sobre o sentido da vida.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Precisamos falar sobre o Suicídio

Por Raquel Rocha

 




O comportamento suicida é conflitante com o instinto de sobrevivência inerente ao ser humano por isso é necessário analisar o desejo de viver contra o de morrer. Apesar da ambivalência, os dados mostram um alarmante aumento do número de suicídio em todo o mundo.
Os grupos de risco são adolescentes e adultos jovens, idosos, imigrantes e indígenas. O trabalho ressalta uma diferença em relação aos gêneros no que diz respeito ao número de tentativas e ao ato levado até o fim, agravantes e atenuantes em ambos. A depressão, o comportamento antissocial, transtornos de ansiedade, problemas físicos, antecedentes familiares e privações econômicas são alguns dos fatores de risco. Além dos fatores de risco também ressalta-se algumas medidas de proteção como ter uma boa relação familiar, ter religião e participar de atividades grupais.
Pesquisas apontam que a maioria das vítimas de suicídio procuraram os serviços de atenção básica antes do ato, assim, discorrendo sobre os fatores comportamentos, fatores de risco e proteção buscamos enumerar possíveis intervenções dos profissionais da atenção primária no sentido de prevenir as tentativas e consequentemente as mortes.


         O que é o Suicídio

O suicídio é definido como ato intencional de tirar a própria vida, iniciado e levado até o fim por uma pessoa com conhecimento e propósito de um resultado final. É uma ação consciente de autodestruição. O termo “suicídio” foi utilizado pela primeira vez em 1.737 por René Louiche Desfontaines. A palavra vem do latim “sui” (si mesmo) e “caederes” (matar).  Pela Organização Mundial de Saúde, OMS, o ato é classificado como uma violência auto infligida, onde o indivíduo é sujeito e objeto desse fenômeno complexo que abarca inúmeras variáveis e remetem o indivíduo a ideia de violência máxima, o assassinato de si próprio.
Segundo dados da OMS, uma pessoa se suicida a cada 40 segundos no mundo. O índice de mortalidade por suicídio aumentou 60% nos últimos 45 anos e vem migrando em participação percentual do grupo dos mais idosos para o de indivíduos mais jovens (15 a 45 anos).
O problema é subestimado, pois estima-se que as taxas de tentativas de suicídio são de dez a vinte vezes maiores que os suicídios consumados. Os dados de suicídios consumados podem ser ainda maior, pois em alguns casos, como os de mortes por afogamento, queda e overdose, é impossível determinar se a causa da morte foi ou não intencional. Não sabendo se o ato foi intencional ou não normalmente se atribui a causa da morte ao fato acidental até mesmo pelo desconforto e dor que envolve a questão do suicídio.


Homens e Mulheres

O número de suicídio é muito maior entre homens que em mulheres. Por outro lado, os dados que se referem à tentativas de suicídio revelam que as mulheres tentam o ato muito mais que os homens.
A diferença verificada em relação a letalidade pode ter como causa os métodos utilizados pois as mulheres geralmente usam métodos menos invasivos como envenenamento para não perderem a beleza na hora da morte. Já os homens usam métodos mais violentos como armas de fogo, enforcamentos ou explosivos para demonstrar virilidade.
As mulheres possuem ao mesmo tempo um agravante e um atenuante para o comportamento suicida em relação aos homens, pois enquanto as mulheres possuem uma tendência maior a depressão (maior fator de risco identificado) ela também possui mais facilidade em conversar sobre o problema com outras pessoas e procurar ajuda.


Grupos de Risco

Nos últimos quinze anos cresceram as tentativas de suicídio e o suicídio na faixa etária de 15 a 34 anos, considerados adolescentes e adultos jovens. Nesta faixa o suicídio constitui a terceira causa morte, perdendo apenas para os homicídios e acidentes. Felizmente, o suicídio entre crianças menores de 15 anos é incomum, sendo muito raro em crianças menores de 12 anos. No mundo inteiro o suicídio está entre as cinco maiores causas de morte entre jovens de 15 a 19 anos. Estudos mostram que metade dos estudantes do segundo grau já tiveram pensamentos suicidas.
Os idosos constituem um grupo risco devido a grande incidência de depressão nesta faixa etária. O problema é agravado por fatores como abandono familiar, perdas materiais, de status, vigor físico, solidão, doenças crônicas e a própria proximidade com a morte.
Existe um risco aumentado de comportamento suicida  nas populações indígenas e também entre os imigrantes. Isso pode ocorrer devido ao isolamento por dificuldades linguísticas e ainda problemas de adaptação cultural. Refugiados de guerra, que sofreram tortura ou ferimentos também constituem grupo de risco. Tantos entre os indígenas quanto entre os imigrantes pode haver problemas de integração na sociedade, decorrentes de conflito de valores.


Fatores que podem levar ao Suicídio

Os fatores de risco para o comportamento suicida são complexos e diversos. É comum o indivíduo apresentar mais de um deles.
O transtorno mental está presente em 90% das pessoas que cometem suicídio. A Depressão é o mais grave de todos. Três em cada quatro pessoas que cometeram suicídio apresentaram um ou mais sintomas depressivos e muitas delas já estava com o transtorno depressivo já estabelecido há algum tempo. Os sintomas mais comuns da depressão são: dor de cabeça, dor de estômago, dor nas pernas e no peito. A depressão aliada ao comportamento antissocial são os antecedentes mais comuns em adolescentes suicidas. Importante ressaltar ainda a diferença dos sintomas depressivos entre meninos e meninas. As meninas quando depressivas se tornam quietas, e os meninos agressivos. Ambos se isolam.
Além da depressão há uma importante relação entre transtornos de ansiedades e tentativas de suicídio. Tanto as pessoas que sofrem de transtornos de ansiedade quanto os indivíduos que fazem uso abusivo de álcool ou drogas tendem a ser mais vulnerável ao comportamento suicida.
Não só os problemas mentais, mas também os problemas físicos que provocam invalidez, vergonha ou dor crônica podem levar levam o indivíduo à vulnerabilidade. Igualmente constitui um fator de risco os antecedentes familiares: indivíduos que possuem membros na família que cometeram ou tentaram cometer suicídio possuem maior probabilidade repetir o ato.
Em relação ao fator família, não só as tentativas de outros membros constituem um fator de risco, mas também a própria relação familiar ruim, onde permanece a falta de diálogo, de afeto, de tempo, autoridade excessiva dos pais ou cuidadores, agressões verbais, desrespeito, negligência, rigidez e rejeição. Também, constituem fatores de risco familiar pais ou cuidadores com psicopatologias, ou que fazem uso abusivo de álcool ou drogas bem como o divorcio ou morte dos cuidadores. A violência sexual ou física durante o início da infância quando não superada também se constitui um grave fator que pode levar ao suicídio. Os problemas familiares é um risco ainda maior para crianças e adolescentes visto que as relações familiares são de estrema importância no desenvolvimento do indivíduo.
A inconformidade com o gênero também pode se tornar um fator de risco, o homem que não se aceita homem e a mulher que não se aceita mulher. Esta inconformidade aliada a falta de coragem de lidar com o homossexualismo agrava o problema. Mesmo quando assumida sua preferência sexual o indivíduo ainda precisa lidar com os valores de sua cultura e os seus próprios, aliado ao preconceito dos pais, familiares, trabalho, escola e qualquer outros grupos sociais em que estão inseridos. Ao sentir-se rejeitados eles podem se isolar e chegar ao comportamento suicida.
Privações econômicas e socioculturais também constituem um fator de risco. Estudiosos afirmam que a pobreza, responsável pelas precárias condições de sobrevivência, o estresse econômico e instabilidade familiar geram ansiedade e comprometimento emocional, fatores que predispõe ao suicídio, que por sua vez representa um indicador de pressão da sociedade sobre esses grupos mais vulneráveis. (MENEGUEL, 2004)
Além de uma estrutura familiar ruim outros fatores podem levar ao suicídio: desemprego,  padrão de possibilidade de consumo ao seu redor maior que o do indivíduo, rejeição nos meios de convivência, baixa autoestima, desesperança e solidão.
Entre as pessoas que tentam ou cometem suicídio encontramos os seguintes traços de personalidade: humor instável, raiva agressividade, impulsividade, ansiedade, perfeccionismo. São pessoas de comportamento antissocial manipulativo, padrões rígidos no enfrentamento de problemas, que demonstram superioridade quando na verdade se sentem inferiores, vivem num mundo fantasioso e possuem baixa tolerância a frustrações.


Fatores de Proteção

Ressaltando a importância da família precisamos lembrar que é nela que vivemos as primeiras e mais marcantes experiências de nosso desenvolvimento psicossocial. Ter bons relacionamentos com os familiares, receber afeto, apoio e atenção dos pais cuidadores é um passo importante na constituição de um indivíduo seguro e feliz.
Além do bom relacionamento com os pais e familiares em geral também constituem fatores de proteção tem boas relações sociais, autoconfiança, capacidade de procurar conselho e ajuda nas dificuldades, estar aberto a ouvir pessoas mais experientes e a novos conhecimentos.
O isolamento é um grave fator de risco, então morar com outras pessoas poder importante para o indivíduo com esta tendência. Ter filhos e companheiro também constituem fatores de proteção. A nível cultural é importante que o indivíduo tenha profissão, religião, pratique esportes, tenha bom relacionamento com colegas e trabalho e escola.




REFERENCIAS

ABREU, LIMA, KOHLRAUSCH E SOARES Comportamento Suicida: fatores de riscos e intervenções preventivas.  http://www.fen.ufg.br/revista/v12/n1/pdf/v12n1a24.pdf
BOTEGA, N. J. Prática psiquiátrica no hospital geral: interconsulta e emergência. 2. ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2006
 MENEGUEL SN, Victora CG, Faria NMX, Carvalho LA, Falk JW. Características epidemiológicas do suicídio no Rio Grande do Sul. Rev. Saude Publica 2004; 38(Supl. 6):804-810.
Prevenção do Suicídio: Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf
Instituto Univérsico de Pesquisa e Educação: http://www.iupe.org.br Acesso em 25 de setembro de 2010.
Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da saúde em atenção primária http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_phc_port.pdf
VIEIRA: "Amor não correspondido": discursos de adolescentes que tentaram suicídio.

Como Referir:  ROCHA, Raquel. Suicídio, Fatores e Risco e de Proteção. Disponível em: < http://soliloquiospsicanaliticos.blogspot.com > Acesso em: __/__/____  

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Laissez faire, laissez passer...



Máxima do liberalismo econômico:

"Laissez faire, laissez aller, laissez passer;
Le monde va de lui même"

"Deixai fazer, deixai ir, deixai passar;
O mundo caminha por si mesmo"

domingo, 15 de maio de 2011

PARADA DO ORGULHO LOUCO

Release

Será realizada no dia 21 de maio, sábado, em Salvador, a  partir das 09hs. Um trio elétrico iniciará a caminhada que seguirá pela avenida Presidente Vargas, das imediações do morro do Cristo até o Farol da Barra. O evento vem tornando-se mais uma marca da luta antimanicomial, que defende o “cuidado integral à pessoa em sofrimento mental”.

Por isso, uma das palavras de ordem é “Manicômio Não Cura, Manicômio Tortura”. A “IV PARADA DO ORGULHO LOUCO” é uma manifestação dos usuários(as), familiares e trabalhadores(as) do sistema de saúde mental do estado da Bahia, que, organizados(as) como um movimento social coletivo, buscam propagar as conquistas e comemorar os êxitos da “Reforma Psiquiátrica Antimanicomial”.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O QUE É A LOUCURA?

Apesar de a psicanálise ser destinada a pessoas normais (o que é a normalidade?) aliviando pequenas dores, curando neuroses e principalmente levando ao  autoconhecimento, ela também tem sua função terapêutica em casos de psicose. Esse é um assunto que fica pra uma discussão futura, no momento vamos entender (ou tentar) o que é a chamada loucura.

O Grito- Edward Munch

AFINAL, O QUE É A LOUCURA?

Conceituar a loucura é difícil devido a proliferação de seu uso com múltiplos significados na atualidade. Normalmente o termo loucura é designado para referir a uma doença mental que afasta o indivíduo da realidade. Também utilizada para designar atitudes foram dos padrões normais estabelecido por determinada sociedade. Do ponto de vista psiquiátrico podemos dizer que a loucura é utilizada para descrever as psicoses, sobretudo a esquizofrenia.

Para Ballone (2005) a esquizofrenia é uma doença da personalidade que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. “Culturalmente o esquizofrênico representa o estereotipo do ‘louco’, um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida”.  Ballone acrescenta ainda que o louco é alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, menosprezando a razão ao mesmo tempo em que perde a liberdade de escapar às suas fantasias”

Para Lopes (2001), historicamente a loucura tornou-se conceituada como psicose no fim do século XIX e início do século XX. Mas depois, ao longo do século XX, psicose propriamente dita fica sendo a esquizofrenia. Ou seja, esquizofrenia, fenomenologicamente percebida, é a definição da mais típica das psicoses, a psicose padrão. O autor acrescenta que “a loucura descrita pelos trágicos gregos, a loucura descrita na bíblia, é a mesma loucura de hoje, do homem que mora em apartamento em qualquer cidade do mundo. Psicose é igual a loucura” (LOPES, 2001, p.3)

Mannoni (1971) explica o ponto de vista freudiano:

À pergunta: que é a loucura? Freud respondeu mostrando que não era preciso opor a loucura à normalidade. O que se descobre na loucura está de certa maneira já no inconsciente de cada um e os loucos simplesmente sucumbiram numa luta que é a mesma para todos e que todos temos de conduzir sem interrupção.....(mas) por que alguns sucumbem e outros não?  (MANNONI, 1971  p.37)

Segundo o Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis (1982): No decurso do século XIX o termo psicose espalha-se, sobretudo na literatura psiquiátrica de língua alemã para designar as doenças mentais em geral, a loucura, a alienação, sem implicar, aliás, uma teoria psicogenética da loucura. (p. 502)

Freud estabelece que as psicoses são distúrbios resultantes de conflitos entre Id e a  realidade. O ego fracassa ao mediar essa luta e acaba sendo arrancado da realidade, para um mundo de fantasias que tenta satisfazer o Id. Honorato e Gebara (2004) acrescenta que segundo Freud numa psicose existe a predominância do Id e a perda presente da realidade. A primeira etapa da psicose é o afastamento do Ego da realidade, a segunda é a tentativa de reparação do dano causado e de restabelecer as relações com a realidade sem restrições ao Id, remodelando a realidade. Ainda na visão freudiana o delírio na psicose é aplicado como remendo para uma “fenda” que apareceu na relação entre o Ego e o mundo externo.

Barros (2010) distancia a loucura das doenças mentais: “loucura é um tipo de comportamento, uma faceta da sociedade, presente nas mais diversas situações. Doenças mentais são transtornos de saúde que podem afetar sentimentos, pensamento e comportamento.” (BARROS, 2010, p.11).

Percebemos a diversidade do conceito de loucura, as vezes o resultado da doença mental, as vezes a própria doença, as vezes um desvio de comportamento.  Na medicina o tempo não é utilizado tecnicamente por ser muito elusivo. Informalmente ele é utilizado para designar patologias como a psicose. Talvez mais apropriado que designar essas patologias o termo seja usado para designar o resultado dessas patologias na medida em que tira o indivíduo do contato com a realidade ou que faz com que o doente tenha um comportamento anormal.

No senso comum o termo loucura é utilizado para designar pessoas com atitudes que fogem aos padrões culturalmente estabelecidos pelo seu meio social. Apesar dos avanços a neurociência ainda não consegue dar respostas completas sobre a causa de todos os transtornos, nem como curá-los. Os psicóticos (com exceção dos portadores de psicose orgânica) não apresentam nenhuma alteração biológica em seu cérebro.

Esquirol (1772-1840) considerava a loucura como sendo a somatória de fatores genéticos e ambientais. Hoje em dia, depois de muitos anos de pesquisas, a psiquiatria moderna reafirma a teoria de Esquirol. O principal modelo, portanto, para a integração dos fatores etiológicos da esquizofrenia é o modelo estresse-diátese, no qual o sujeito tem uma vulnerabilidade que, colocada sob a influência de fatores ambientais estressantes leva a psicose.

REFERÊNCIAS
BALLONI
GJ - Esquizofrenias- in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=108> ,atualizado em 2008. Acesso em 13/04/2011
BARROS- Os Psicóticos e os Normais- Apontamentos sistemáticos aleatórios. http://www.hottopos.com/seminario/sem2/barros1.htm  Acesso em 01/02/2011

HONORATO GM, GEBARA AC- Alguns aspectos que podem ser identificados no psicodiagnóstico de Psicose Infantil, in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, 2004.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. (1982): Vocabulário da psicanálise. Editora Martins Fontes. 1992. p. 502.
LOPES, 2001 A psiquiatria na época de Freud: evolução do conceito de psicose em psiquiatria Revista Brasileira de Psiquiatria. vol.23 no.1 São Paulo Mar. 2001
MANNONI, Maud. O psiquiatra, seu “louco” e a psicanálise, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1971
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE; Relatório Mundial da Saúde. Saúde mental: nova concepção, nova esperança. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2001.

domingo, 1 de maio de 2011

GARAPA


No meio de tanta teoria psicanalítica peço licença para falar de cinema. Como os solilóquios são meus, eu mesma me autorizo.

Ontem finalmente assisti o documentário Garapa, de José Padilha que retrata a miséria de algumas famílias do interior do Ceará. O documentário é chocante. Não que a gente não saiba que ainda tem gente passando fome por aí, mas uma coisa é saber, outra é ver crianças extremamente magras, com as costelas aparecendo, pedindo comida, comendo no chão como se fossem animais, disputando a comida com as moscas. “Garapa” o nome da mistura de água quente com açúcar colocada na mamadeira e dada as crianças quando não se tem outra coisa para dar.

Garapa dá um tapa na cara de todo mundo que assiste, dizendo “Isto é real, Veja.”.

O documentário traz a tona vários problemas sociais como a miséria, a falta de planejamento familiar, o alcoolismo, o desemprego. O pai que deixa os filhos com fome e vai beber cerveja. A mãe que não tem como alimentar seus filhos mas continua engravidando. Pessoalmente não gosto da referência ao bolsa família. Mesmo perplexa com as cenas de fome, não acredito que o bolsa família seja a solução. É apenas um paliativo, um cala-boca, um “não morra tão rápido”. A solução concreta, mesmo que demorada, das nossas mazelas sociais está na educação.  (mas mudemos de assunto)

Muito mais agradável que falar de questões sociais e políticas, é falar da cinematografia. Padilha filmou a maior parte do documentário com câmera fixa. As imagens em preto e branco, mostradas as vezes em plano geral, as vezes me plano detalhe, o tempo todo ordena “Não tire os olhos de mim”. Assistir Garapa me lembrou das fotografias do livro Terra, de Sebastião Salgado. Quase ouvi a voz de Saramago narrando aquela realidade. Mas o filme não tem narração, não tem trilha sonora, só tem a realidade nua e crua mostrada com arte.

Gosto das intervenções de Padilha, das perguntas discretas feitas por trás das câmeras, da forma como ele se intromete e se retira das cenas, gosto até da interferência que ele faz em uma situação. Um diretor não é uma lente.

Quando assisti o primeiro Tropa de Elite, filmado com aquela câmera nervosa, em movimento, participando da ação, pensei “Esse filme parece documentário”. Dessa vez, Garapa com sua imagem fixa, sua pouca profundidade de campo, seu ritmo lento, pensei “Isso parece filme..”. Padilha surpreende, surpreende com sua temática e com sua estética.

Só não digo que Garapa é um filme bonito porque a miséria é muito feia..





É possível assistir ao documentário completo no endereço http://www.youtube.com/view_play_list?p=CE990E24E3AA3DFD

sábado, 30 de abril de 2011

Erik Erikson e os 8 estágios


Há algum tempo eu queria falar sobre Erik Erikson aqui mas não poderia fazê-lo sem falar antes dos mestres maiores da psicanálise, Freud, Jung, Klein... Não poderia mas fiz, Melanie Klein que me perdoe mas vou falar de Erik Erikson antes tocar no "seio bom".

Penso que Erikson é um dos nomes mais importantes da psicologia do desenvolvimento pois sua teoria abrange todo o ciclo vital, do nascimento até a morte. Ele foi um seguidor da teoria Freudiana mas fez diversos acréscimos ampliando as possibilidades. Segundo ele a personalidade humana é determinada não apenas pelas experiências da infância mas também por todas as experiências ocorridas ao longo dos oito estágios, inclusive os da fase a adulta. Uma personalidade está sempre sendo influenciada pelos acontecimentos, pelo meio e pelas pessoas.

Gosto de Erikson, de seu olhar observador, de sua teoria bem explicadinha. Por vezes  pego-me analisando características de alguém em uma determinada idade e pensando "Erikson tinha razão.."


QUEM FOI ERIK ERIKSON

Erik Homburger Erikson nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 15 de junho de 1902. Começou a vida como artista plástico e aos 25 anos foi lecionar em Viena quando passou a ter contato com a família Freud, em especial Anna Freud com quem começou a fazer análise.  Ele começou a se interessar pela psicanálise em 1933, após completar a sua formação como psicanalista, foi eleito para o instituto de psicanálise de Viena.

Também em 1933 emigrou para os Estados Unidos onde iniciou a prática da psicanálise infantil em Boston, associando-se à faculdade de medicina de Harvard.  Lecionou ainda nas universidades de Berkeley e Yale. Viveu nas reservas dos índios Sioux e as suas experiências pessoais em antropologia, muito citada em suas obras, deram-lhe uma forte perspectiva social e um sentimento de desenraizamento.

Em 1936 Erikson transferiu-se para um centro de estudos de relações humanas a fim de pesquisar sobre a influência da cultura e da sociedade no desenvolvimento infantil. Como resultado dessa pesquisa formulou a teoria segundo a qual as sociedades criam mecanismos institucionais que propiciam e enquadram o desenvolvimento da personalidade. Na década de 1940, Erikson criou o modelo exposto na obra Infância e sociedade (1950). Publicou livros sobre Martinho Lutero, Gandhi e Hitler e escreveu ensaios em que relaciona a psicanálise com a história, política, filosofia e teologia.

Criador da expressão 'crise de identidade', as suas concepções revolucionaram a psicologia do desenvolvimento, continuando até os dias de hoje a incentivar estudos.  Erik Erikson morreu em 1994, aos 92 anos de idade.

Sua teoria é bem mais flexível que a freudiana, pois para ele a personalidade não é imutável, padrões estabelecidos na infância são o tempo todo submetidos às novas experiências. Erikson afirmou que: "Se tudo tem inicio na infância, então tudo é culpa de outra pessoa, e assumir a responsabilidade por si mesmo é algo que já sofreu prejuízo”. Assim, na teoria de Erikson o indivíduo passa a ser corresponsável pelo seu próprio desenvolvimento.

Considerando o primeiro psicanalista infantil norte-americano ele escreveu ensaios que relacionam a psicanálise com a filosofia, a história, a política e a teologia. Suas concepções revolucionaram a psicologia do desenvolvimento e até os dias de hoje ele motiva estudos e reflexões.


 DESENVOLVIMENTO HUMANO EM OITO ESTÁGIOS




Erik Erikson elaborou uma concepção de desenvolvimento que ocorre ao longo de toda a vida e é influenciado pelas características dos contextos sociais em que o indivíduo se encontra. O desenvolvimento é descrito em oito estágios psicossociais que vão do nascimento até a morte. Em cada um desses estágios há uma função que, em forma de conflito ou crise, assume uma vertente positiva e uma negativa. Esses estágios contribuem para a formação da personalidade e por isso, são importantes mesmo depois de atravessado.  Também não têm uma duração detarminada uma vez que cada pessoa tem um ritmo cronológico específico. O núcleo de cada estágio é uma crise básica, que pode ser originada nos estágios anterioses e ter consequência nos estágios posteriores.

Primeiro Estágio: Confiança x Desconfiança (0 a 1 ano)

O primeiro estágio, chamado de Confiança x Desconfiança, ocorre a partir do nascimento até o primeiro ano de vida da criança. Através da relação com a mãe, a criança adiquire ou não confiança em si mesma e no mundo que a cerca. Se a criança se sentir amada e protegida conseguirá amadurecer de forma equilibrada. Se a criança não tem suas necessidade básicas (físicas e emocionais) atendidas poderá se tornar insegura sentindo medo e desconfiança em suas relações. Para Erikson, a importância da confiança básica se deve ao fato de implicar a ideia de que a criança “não só aprendeu a confiar na uniformidade e na continuidade dos provedores externos, mas também em si próprio e na capacidade dos próprios órgãos para fazer frente aos seus impulsos e anseios” (1987, p.102).

Segundo Estágio: Autonomia x Vergonha (2 e 3 anos)

O segundo estágio, Autonomia x Vergonha, ocorre no segundo e no terceiro ano e corresponde à fase anal freudiana. Nele, a criança passa a ter controle sobre sua musculatura e sobre suas necessidades fisiológicas, o que lhe passa a conceder certa autonomia. Além do controle da musculatura a criança passa a explorar seu próprio meio, dar os primeiros passos, querer tocar e conhecer as coisas que a cerca. Esse desenvolvimento físico vem junto com o intelectual e a criança começa a aprender as regras sociais, o certo e o errado, o que se pode ou não fazer gerando um conflito entre sua vontade e as regras sociais. Para ensinas as regras sociais os pais se utilizam de duas ferramenas, a vergonha e o encorajamento. O estabelecimento de regras deve ser feito de forma equilibrada. Rabello (2007) expõe que:


"Neste estágio, o principal cuidado que os pais têm que tomar é dar o grau certo de autonomia à criança. Se é exigida demais, ela verá que não consegue da conta e sua auto-estima vai baixar. Se ela é pouco exigida, ela tem a sensação de abandono e de dúvida sobre suas capacidades. Se a criança é amparada ou protegida demais, ela vai se tornar frágil, insegura e envergonhada. Se ela for pouco amparada, ela se sentirá exigida além de suas capacidades. Vemos, portanto, que os pais têm que dar à criança a sensação de autonomia e, ao mesmo tempo, estar sempre por perto, prontos a auxiliá-la nos momentos em que a tarefa estiver além de suas capacidades." (RABELLO, 2007, p. 6).


Terceiro Estágio: Iniciativa x Culpa (4 e 5 anos)

O terceiro estágio, chamado Iniciativa x Culpa, acontece por volta do quarto e quinto ano e corresponde a fase fálica freudiana. Nesta fase a criança já consegue distinguir o que pode fazer e o que não pode fazer e tem a capacidade de planejar suas ações dentro dos parâmetros aprendidos durantes as fases anteriores (confiança, desconfiança, autonomia e culpa). Nesse período ela também percebe as diferenças sexuais entre homens e mulheres e o complexo de édipo se torna latente com a fixação na figura do seu progenitor do sexo oposto. Já cientes das regras sócias que condenam a relação idealizada, as crianças experimentam a sensação de culpa por seus sentimentos. A energia desse desejo é revestida pra outras atividades socialmente aceitáveis e a criança fazem amigos, participam de jogos e aprendem a ler e a escrever.

Quarto Estágio: Indústria x inferioridade (6 a 11 anos)

O quarto estágio, Indústria x inferioridade ocorre junto com a fase escolar, antes da adolescência, normalmente entre os seis e os onze anos. Nesta idade a criança já se sente capaz de produzir, mas esse grau de produtividade está fortemente relacionado à como a criança resolveu os conflitos nas fases anteriores. Para produzir é necessário que ela tenha adquirido a confiança da primeira fase, a autonomia da segunda fase, e a iniciativa da terceira fase. Com confiança, autonomia e iniciativa a criança em seu quarto estágio será capaz de produzir e sentir-se competente. É uma fase sensível e se o grau de exigência for alto e a criança sentir que não consegue corresponder, ela pode regredir à estágios anteriores de desenvolvimento estabelecendo-se um sentimento de inferioridade que pode levar, por exemplo, à  bloqueios cognitivos. Nessa fase a criança deverá sentir-se integrada na escola, uma vez que novos relacionamentos interpessoais se fazem importante na construção de sua identidade. Esta é a fase a qual Freud deu menos importância chamada de latência por considera-la um período de adormecimento sexual.

Quinto Estágio: Identidade x Confusão (12 a 18 anos)

O quinto estágio, Identidade x Confusão de identidade, marca o período da adolescência e ocorre normalmente entre os 12 até os 18 anos. Nesta fase surgem questões como “O que eu sou?” “O que me tornarei” “O que eu quero?” “O que meus pais esperam de mim?”.  É uma fase de conflitos e de mudanças, o indivíduo já não é criança mais ainda não é adulto, precisando lidar com transformações físicas e hormonais em seu corpo e ao mesmo tempo invadido por um turbilhão de novas emoções, como os primeiros amores. Para lidar com todas as mudanças o adolescente precisa da segurança construída por seu ego em todos os estágios anteriores. Nessa busca por sua identidade ele se depara com o conflito entre as expectativas dos seus pais e as suas próprias. Essa fase também é marcada por características como tendência grupal, para sentir-se pertencente a algo; crises religiosas, atos de rebeldia, luta por liberdade e constantes flutuações de humor. O  adolescente também se influencia facilmente pelas opiniões alheias, e nesta tentativa se encaixar ele passa a agir de forma inconstante e contraditória. É neste estágio que se adquire uma identidade psicossocial. Se as questões forem bem resolvidas o adolescente sai desta fase consciente de sua indiossincrasia e de seu papel no mundo.

Sexto Estágio: Intimidade x Isolamento (20 a 30 anos)

A questão central do sexto estágio, chamado de Intimidade x Isolamento, é a capacidade de conviver com outro ego. Nesta fase, que ocorre dos 20 aos 30 anos, a identidade já deverá ter sido estabelecida na adolescência e o individuo estará amadurecido para viver uma intimidade afetiva e sexual com outra pessoa, construindo uma relação profunda e duradoura. As uniões e casamentos surgem nesta fase. O indivíduo precisa ter construído um ego forte ao longe de todas as fases anteriores para conseguir se unir a outra pessoa sem se sentir ameaçado ou anulado. Quando o ego não é suficientemente seguro, no caso das crises anteriores não terem desfechos positivos, a pessoa irá preferir o isolamento à união, pois terá medo de compromissos, numa atitude de “preservar” seu ego frágil.

Sétimo Estágio: Generatividade x Estagnação (30 a 60 anos)

A sétima fase, Generatividade x Estagnação ocorre por volta dos 30 aos 60 anos e caracteriza-se pela capacidade de gerar, de produzir qualquer coisa, seja filhos ou negócios, ou pesquisas. O indivíduo sente que precisa dar sua contribuição ao mundo, gerar frutos, ensinar o que aprendeu para, dessa forma, deixar sua presença registrada. Segundo Erikson, as pessoas que são capazes de olharem para fora de si, para a família, terão a sensação de estarem contribuindo para as futuras gerações. Os indivíduos que não constituem família poderão sentir-se estagnados na meia idade. A vertente negativa leva o indivíduo à estagnação, a sua não produtividade, não contribuição para o mundo devido à centralização em si próprio.



Oitavo Estágio: integridade x Desespero (após os 60 anos)

Por fim, o oitavo estágio, chamado de Integridade x Desespero, ocorre a partir dos 60 anos. É nesta fase que o indivíduo faz uma reflexão sobre seu passado, um balanço de suas conquistas e fracassos. É o final do ciclo psicossocial que pode ter um desfecho positivo ou negativo. No caso positivo, o indivíduo sente-se em paz, por ter vivido bem sua vida, por ter produzido, por valorizar as coisas que gerou como a família, os amigos ou os negócios. No desfecho negativo o indivíduo vivencia um sentimento de desespero, cheio de arrependimentos e lamentações, lembrando-se dos erros com a sensação de tempo perdido e a impossibilidade de recomeçar.
Se a pessoa está satisfeita com a vida que teve ela aceitará a morte com integridade. Citando Erikson, a criança saudável não teme a vida, e o idoso saudável não teme a morte.  Para Rabello (2007).


"Agora é tempo do ser humano refletir, rever sua vida, o que fez, o que deixou de fazer. Pensa principalmente em termos de ordem e significado de suas realizações. Essa retrospectiva pode ser vivenciada de diferentes formas. A pessoa pode simplesmente entrar em desespero ao ver a morte se aproximando. Surge um sentimento de que o tempo acabou, que agora resta o fim de tudo, que nada mais pode fazer pela sociedade, pela família, por nada. São aquelas pessoas que vivem em eterna nostalgia e tristeza por sua velhice. A vivência também pode ser positiva. A pessoa sente a sensação de dever cumprido, experimenta o sentimento de dignidade e integridade, e divide sua experiência e sabedoria. Existe ainda o perigo do indivíduo se julgar o mais sábio, e impor suas opiniões em nome de sua idade e experiência." (RABELLO, 2007, p. 11).